segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A Mosca.

Algo muito adventício aconteceu há alguns dias atrás. Caros leitores pensei muito se contaria esse caso a vocês. Pelo simples fato de que talvez alguns de vocês se assustem com essa historia. Mas como gosto de falar. Não me agüentei. Foi em uma tarde nublada. As janelas estavam abertas e enquanto eu bebia meu café, podia sentir a brisa gelada que entrava balançando as cortinas. Eu estava ouvindo Dirty Mac, yer blues e lendo algumas crônicas de Rubem Braga. Decidi fechar as janelas. Estava ficando frio. E aquela brisa gelada teimava em entrar no quarto. Levantei-me. Fechei-as. Sentei para tomar mais um gole de café. Mas quando levei a mão para pegar a xícara. Deparei-me com uma mosca. Sentada na minha xícara. Sim, na minha xícara de café. Que ousadia, pensei. Qual é a dessa mosca? Sentar na minha xícara de café. Mas o pior, caros leitores, não foi apenas o sentar da mosca em minha xícara. Ela sentou. E me olhou. Como quem diz: “Aí otária! Sentei na tua xícara.” Aquilo realmente me revoltou. Não costumo agredir animais, insetos ou qualquer tipo de ser vivo. Mas aquela mosca estava abusando da minha paciência. Resolvi acabar com aquela pouca vergonha. Peguei o mata-moscas e quando parti para o ataque, ela simplesmente voou para cima do computador e disse, sim leitores, ela DISSE: “Eu não faria isso se fosse você”. Parei. Confesso que não consegui mais matar a maldita mosca. Talvez eu tivesse exagerado um pouco na dose de café. Não sei. Acontece que resolvi responder aquela mosca preta sem vergonha. Parece loucura. Mas eu precisava ter certeza de que ela realmente tinha falado comigo. Feitas as apresentações, a danada soltou o verbo. Contou-me da vida de todos os vizinhos e mais um pouco. Imaginem só, uma mosca fofoqueira. Era só o que me faltava. “Fofoqueira é quem ouve não quem fala”. Além de fofoqueira era linguaruda. Mas resolvi dar trela para a mosca. Afinal de contas, quem é que não gosta de uma fofoquinha às vezes? A fofoca é algo contagiante. Mas enfim, voltemos à mosca e suas balelas. Ela contava-me que acabará de sair do apartamento do vizinho do andar de cima. O coitado é louco. Já havia presenciado algumas de suas loucuras, mas nada parecido com ao que a mexeriqueira me contou. Disse-me que ao passar pelo seu apartamento, viu-o de frente ao quadro de Michelangelo. Davi. Segundo a mexeriqueira, ele estava em pé, com pinceis e tintas guaches. Falava sozinho, indignado com o tamanho do... Bem, ele achava vergonhoso para o bonito moço do quadro, estar exposto daquela maneira, ainda mais, porque o seu órgão sexual era um tanto quanto insignificante. A mosca disse-me que pensou em explicar a ele, que se o pintor o tivesse feito com um baita órgão, o quadro perderia sua beleza, pois a única coisa que chamaria atenção seria o dito cujo. Mas ela resolveu ficar ali. Imóvel. Só assistindo a cena. O vizinho estranho pegou o pincel molhou na tinta e colocou a mão na massa. Tratou de aumentar o desenho do pequeno órgão do moço do quadro. Ela estava eufórica. A cada detalhe que contava soltava uma bela de uma gargalhada. Que mosquinha lazarenta! Não tive nem tempo de comentar sobre a fofoca. A danada da mosca já tratou de falar da vida da gorda do apartamento ao lado. “Que bunda imensa”. Dizia a mosca. A jovem gorda baixinha era tão feia, mas tão feia, que deveria fazer uns trinta anos que ela não fazia amor. Passava o dia comendo e chorando as magoas. Roia as unhas compulsivamente e lia livros de auto-ajuda. Sempre sentada no sofá, com algum pacote de fritas e um refrigerante light. Gordo adora tomar coisas light e comer fritas. Falava-me a mosca rindo. A Mosca parou de falar. Estranhei. Perguntei a ela, qual era o motivo do silêncio. Ela deu uma respirada bem funda e continuou. Disse-me que a gordinha levantou do sofá e dirigiu-se ao banheiro. “Foi um Deus-nos-acuda”, dizia a mosca com uma expressão de horror. A pobre gordinha tinha problemas em defecar. Às vezes, até conseguia fazer sair algumas bolinhas, depois de muito gemido e sofrimento. Diz a Mosca que o signo da gordinha no horóscopo chinês era Cabra. Talvez isso tivesse alguma ligação com o horror que a rechonchuda vizinha sentia ao receber o “chamado da natureza”. Que absurdo. Pensei. Essa Mosca é louca. Mais louca que o vizinho do andar de cima. Quem é que gosta de assistir alguém... Com o perdão do palavrão, cagando! Que asco. Pedi a ela, que parasse com aquela historia. Queria poder terminar de comer minhas bolachas de chocolate em paz. Ela atendeu meu pedido. Mas partiu para outra. Lá no último andar, contava a fofoqueira, mora o Sr. Arnaldo. Sempre de terno, camisa, gravata e sapatos pretos. Diz a Mosca que passou a observá-lo com mais freqüência, pois desconfiou que fosse ele o cara que fazia cerimônias de enterros. Mas não era nada disso. O cara tinha tique nervoso. Piscava os olhos constantemente e dava umas erguidinhas no lábio superior. Segundo a Mosca, corno na certa. E manso ainda por cima. Sei lá de onde foi que aquela maluca tirou isso. Mas ouvi em silêncio. Ela continuava expondo toda a vidinha medíocre do meu vizinho. Foi abandonado pela esposa. “Também pudera, quem agüentaria muito tempo com alguém que vive com o mesmo traje e mesmo sendo jovem tinge os cabelos? Sem falar no bigode, também tingido”. A Mosca não era fraca. Não perdia uma piadinha. Lazarenta. Senti vontade de voltar a minha leitura, mas confesso que estava me divertindo com aquele inseto preto. Deu uma passeada pela minha casa. Sentou novamente em minha xícara de café já frio. É claro. Não tomei mais nenhum gole depois daquela bela sentada que a maldita Mosca deu. Continuou com toda a ladainha. Disse-me que passou pela padaria do Sr. Chicão ontem. Enquanto esfregava uma perna na outra me contava que sentia pena dos clientes do Sr. Chicão. Os doces eram maravilhosos sim. Ela mesma já tinha provado todos do cardápio. O Chicão da padaria era cheio de manias. “Coçava a bunda e limpava o nariz o dia inteiro”. Coitados. Dizia a mosca. Segundo ela, os clientes reclamam quando ela resolve dar uma passada por lá. “Ah, se eles soubessem o que o padeiro faz lá dentro da cozinha...”. Bem, uma coisa é certa. Essa história serviu para que eu não entrasse mais na padaria. Em pensar que comia carolinas toda semana lá. Credo. Pedi para que ela parasse com aquele assunto. Já estava passando mal, só em lembrar tudo que eu já tinha comido. E tudo feito pelo Sr. Chicão. Porco. Fez-se um breve silêncio. Breve mesmo. A tagarela lembrou-se da Dona Ana. Uma velha beata do apartamento sete. Faz parte da Irmandade do Santíssimo Sacramento, é catequista. Guarda "domingos e festas", "reza" o tempo todo que tem livre... É a tal da "papa-hóstia" convicta. Uma legítima "rata de sacristia". Anda pra lá e pra cá com a Bíblia em baixo dos braços. “Uma verdadeira alcoólatra de água benta”. Proferia a mosca em meio a gargalhadas. Bem, eu já estava me cansando de ouvir tanta arenga. Aquela cantilena estava realmente me irritando. Estava na hora daquela mosca ir mexericar em outro apartamento. Foi quando ela me olhou com uma cara desconfiada e contou-me que estava aqui em casa no sábado passado... ”Lá pelas dez horas para ser mais exata” Concluiu a desgraçada com um tom de voz muito irônico. Não pensei duas vezes. Matei a mosca. Ela sabia demais e sem dúvida nenhuma, falava demais.

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