quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Monólogo de um suicida desditoso

Hoje eu vou morrer. Vou morrer porque quero morrer, entretanto, acredito que tenho direito de falar um pouco, pelo menos um pouco, agora que sei que vou morrer. Meu nome é Amaral. Só Amaral. Não gosto do meu sobrenome. Eu tenho 39 anos e moro com minha mãe. Meu pai faleceu já faz uns dez anos. Pois bem, seja lá quem esteja ouvindo essa fita... Eu moro com minha mãe e isso é bom. Não preciso fazer muita coisa. Quando era mais novo, tranquei a faculdade de Direito e até hoje não trabalho. Na verdade, minha mãe me sustenta... E isso é bom também. Eu namorei um tempo, um tempo bem curto na verdade. A Beatriz... Ah, a Beatriz... Mulher bonita e difícil de lidar. Disse que não me agüentava mais e foi embora. Isso não é bom. Gostava de dormir com ela. É inverno, ela foi embora. Sinto frio e bem... Se ela estivesse aqui, sabe como é, sexo esquenta! Mas ela disse que não voltaria enquanto eu não tomasse jeito. Sei lá o que ela quis dizer com isso. Eu sou um cara jeitoso. Até sei fazer alguma comida. Um arroz, um ovo frito, às vezes arrisco um macarrão. Instantâneo. Sabe... Não me considero um cara feio. Na verdade, acredito que eu sou um tanto quanto atraente. Quero dizer, quando eu faço a barba é claro. Detesto fazer a barba, tenho alergia. Machuca. Só faço mesmo quando minha mãe incomoda muito pedindo para que eu a faça. Merda! O gravador caiu...
...Bem, como eu ia dizendo... Que diabos eu estava dizendo? Oh sim. Eu não gosto de fazer a barba. Deito-me para dormir muito tarde e acordo também muito tarde. Normalmente lá pelas 6horas da tarde. Dependendo da preguiça e do clima também. Alguns dias frios eu nem me esforço para levantar. Gosto de ficar embaixo dos cobertores quentes... Seria melhor se a Beatriz estivesse aqui, mas ela foi embora... Já disso isso. Deixe pra lá. Sempre fico sozinho em casa, sabe como é minha mãe trabalha o dia todo, chega só à noite. Ela é costureira em uma pequena empresa de artesanato lá do centro. Ganha razoavelmente bem. Ela é feliz... Às vezes. Reclama muito comigo. Quer que eu saia, conheça pessoas legais, vive pedindo para que eu pare de beber cerveja e comer porcarias. Mas eu gosto mãe! Ela reclama que estou barrigudo. Não acho que estou barrigudo. Pensando bem... Estou levemente acima do peso, mas as mulheres gostam de barrigudos. Gostam de carecas também. Mas não estou careca. Tenho muitos fios de cabelo branco, mas ainda restam alguns pretos. Não gosto de cigarros, mas fumo para passar o tempo. Semana que vem é o meu aniversario. Ou melhor, seria, se eu não fosse morrer hoje. Vou virar a fita... Pronto. Então... Eu vou morrer hoje porque estou cansado do ócio não remunerado. Seria bom ter algum dinheiro, às vezes acho chato pedir para minha mãe trazer cerveja do mercado. Ela sempre trás. Antes de morrer, gostaria de dizer para a minha mãe que... Droga! Minha mãe chegou... Um instante...
... Ela trouxe cerveja. Melhor deixar para morrer amanhã.

Um comentário:

Anônimo disse...

...Tudo foi consumado,
eu sou a felicida e minha morte foi certa...
Nunca mais ninguém ouvirá falar de mim.
Vão tentar entender o motivo da minha ausência,
mas não conseguirão,
tentarão me encontrar,
mas nunca irão me achar,
tentarão me substituir,
mas nunca terão sucesso.
O mundo não mais me merece...

Tudo acabou, eu vou partir,
nem adianta mais eu resistir,
a solidão bateu e o amor morreu,
e tudo que eu nunca quis aconteceu...

Olhe nos meus olhos e veja como estão,
lágrimas de sangue correndo em vão... Estou triste,
vivendo na contra mão,
sorrindo sem vontade,
vivendo uma pura ilusão...

Não sei como farei isto,
tem que ser rápido e sem nenhuma dor,
porém talvez eu só precise de uma bala,mas não!
Eu preciso de um segundo para pensar em tudo que me aconteceu antes mesmo de fechar meus olhos,
por isso vou me jogar daqui,
assim durante toda minha queda,
minha mente terá tempo para relembrar todo esse meu passado sombrio,
e sei que terei no fim,
"UM IMPACTO MORTAL"

AUTOR: Fernando Pelozi
contato: fernandopelozi@pocos-net.com.br