Crescemos mergulhados em um mar de porquês. Quando crianças, não entendemos porque devemos escovar os dentes depois das refeições. Não entendemos porque temos que ir à escola sendo que queríamos na verdade ficar brincando em casa. Questionávamos-nos sobre porque o sorvete é gelado ou porque há dias em que chove e dias que faz sol. Lembro-me de um pequeno vizinho. O rapazinho tinha quatro anos e era um doce de criança.
- O que é isso?
- É chá.
- Porque está tomando?
- Estou gripada.
- Por quê?
- Porque saí no frio, e fiquei gripada.
- Por quê?
- Porque não faz bem pro nosso organismo sair no frio com o corpo quente.
- Por quê?
- Porque sim Otávio...
-... Mas por quê?
A conversa foi realmente longa. Crianças questionam tudo, entretanto, inocentemente. Por pura curiosidade. Aí finalmente crescemos. Esquecemo-nos dos inocentes porquês. Simplesmente levamos a vida da forma que nos entregam. Todavia, sinto-me obrigada a deixar aqui alguns porquês, não tão inocentes e puros como a do meu pequeno vizinho Otávio. Talvez sejam porquês necessários, ou talvez, sejam apenas porquês.
Andei lendo sobre a crise que assusta todo o país e o mundo da escassez de alimentos de todos os setores. De fato, é preocupante. Acredito que o ser humano não poderá viver sem suprir suas necessidades básicas de alimentação. As organizações governamentais e não-governamentais estão realmente inquietas e tentando encontrar soluções...
Ainda bem, que esse problema surgiu só agora. Há-há. Eu acho graça. Inúmeras pessoas morrem de fome em todo o mundo. Muitas delas morrem sem identidade. É um mar de gente invisível. Passamos por diversas delas quase todos os dias e o máximo que passa por nossa mente é um “mísero”. Às vezes nem passa. Isso já virou rotina. Faça o seguinte caro leitor, saia de casa e vá para o centro da cidade. Lá, você encontrará muita gente invisível. Suba o morro, ou simplesmente atravesse a rua. Mas... Por quê?
Mas tenho que confessar que fiquei admirada ao ver a imensidão de “frutas” que surgiram ao pé dessa crise de alimentos. É melancia, jaca, moranguinho... É muita fruta. E é impossível não ser atraído pela “belíssima fruta”, apesar de que hoje não precisa ser bela, basta ser gostosa. Não é? Essas frutas que saíram da bancada dos supermercados hoje dominam os programas de TV, revistas, jornais. MA-RA-VI-LHA. Vamos viver dessas frutas já que os demais alimentos estão se tornando escassos. Você deve estar torcendo o nariz e exclamando “Ora essa, mas não é só isso que a televisão mostra.” De fato não é só isso. E posso comprovar. Liguei a TV alguns dias atrás, e recebo a brilhante notícia de que o Ex-BBB, Marcelo passeou em uma tarde de muito sol e calor por copacabana. O mais incrível é que segundo a repórter ele bebeu muita água e não largou sequer um segundo de sua garrafa. (?)
Pressinto que você esteja mais uma vez a torcer o nariz e ainda contestando minha opinião. “Mas e o Fantástico, o Jornal Nacional?” Ora essa caro leitor, o noticiário hoje acompanha as datas festivas. (Já escrevi sobre isso na crônica “Tenha santa paciência”, mas dar-me-ei ao luxo de fazer breves ponderações). Fevereiro é muito carnaval, fantasia, pernas, coxas, peitos e claro, muita bunda. Fevereiro é pouca corrupção, pouco assalto e pouca desnutrição. Março é páscoa. É chocolate pra cá e pra lá. O Fantástico visita diversas cidades com feiras de chocolates, mostra como aproveitar o doce sem exagero, e ainda como comprar sem gastar muito. Pouco se fala sobre o mundo, a economia. Chegamos ao mês de Abril, gordos e felizes. Volta o mensalão e o dinheiro nos fundilhos. Mas logo vem Maio. E aí, é o maravilhoso dia das mães. Mais uma vez aprendemos com a TV a comprar presentes bons sem gastar muito. Fulana reencontra a mãe depois de dez anos afastadas... Junho é São João. Julho é férias. Agosto, Setembro. Opa, agora é sete de setembro. Marcha soldado! Outubro é dia das crianças. Lá vem a mesma história da páscoa, entretanto trocam-se os deliciosos chocolates por atraentes brinquedos. Novembro, Dezembro. É natal... Mas aí chega janeiro. Ano novo minha gente. Festas, fogos. E então voltamos ao carnaval... Um belo dia, um padre que não tinha missa alguma para rezar, resolveu voar. Outro dia, jogaram uma criança pela janela e no outro espancaram outra... Os EUA aprovaram novos fundos para guerra no Iraque... A Coréia do Norte fez declarações sobre seu programa nuclear... Mas por quê?
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