segunda-feira, 18 de maio de 2009

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Romantismo às favas!

E tenho dito.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Eu

Eu não gosto de filmes de terror. Não tenho carro, nem bicicleta. Gosto de livros. Alguns. Nunca fui boa em matemática. Aprecio um português bem falado e bem escrito. Detesto hip hop. Prefiro coca-cola à pepsi. Já subi em palcos. Gosto de chocolates e café. Acredito em amor a primeira vista. Entretanto, acredito também que ele só existe à primeira vista mesmo. Sinto cócegas. Tenho paixão por música. Adoro blues. Gosto de tatuagens. Não tenho nenhuma. Gosto de refrigerantes e cerveja. Adoro violão. Admiro Érico Veríssimo. Não como banana. Mas adoro cuca de banana. Não tomo sorvete. A menos que seja na vaca-preta. Gosto de dançar. Não tenho filhos. Nem namorado. Gosto de escrever. Não sou escritora. Adoro bolacha recheada, de preferência passatempo. Não sou organizada. Detesto dobrar roupas e lavar louça. Faço direito. Adoro o que eu faço. Não sou simpática. Sou magra. Não tenho peitos. Sou nômade. Vivo uma eterna espera. Tenho vontade de viajar. Conhecer. Almejo uma paixão. Não tenho cachorro. Tenho paixão por animais. Eu moro sozinha. E quase sempre me sinto sozinha. Tenho bons amigos. Gosto de cozinhar. Raramente cozinho. Uso pantufas no verão. Não gosto do meu pé. É magro e largo. Assim, parecido com o de um pato. Sofro de ansiedade e stress. Rôo as unhas. Mordo os lábios sem perceber. Adoro banho quente. Tenho alergias e rinite. Gosto de festas. Uísque. Gosto de romances. Não gosto de amigo-secreto. Não tenho paciência. Queria poder voar. Tenho paixão por caçar pessoas interessantes na multidão, desvendar personagens por trás de suas primeiras impressões. Eu reparo nas pessoas. Suas roupas, modo de falar, comer e andar. Não suporto sorrisos demais. Eu não falo alto, não gosto que falem. Tenho discos. Não tenho toca-discos. Não acredito em destino. Acredito em planos. Tenho planos. Não suporto conversar com gente arca. Gosto da minha família. Não tolero mais de meia hora com minha prima. Gosto de cinema. Não gosto de pipoca. Eu falo palavrão. Muito palavrão. Eu sei arrotar. E arroto. Tenho uma paixão platônica por um personagem do Érico, Capitão Rodrigo Cambará. Sou indecisa e carente. Farofa, para mim, é bem mais que um mero acompanhamento. Gosto de moda de viola e rock. Gosto de provar roupas, mas detesto quando minha mãe abre o provador. Ela sempre abre. Só escrevo quando me sinto triste e de madrugada. Sei sambar. Não gosto de pagode. Minha vida amorosa é uma bela piada. Às vezes, finjo que gosto. Tenho paixão por filmes épicos. Não faço idéia de qual seja meu tipo ideal de homem. Gosto de carinho. Adoro cheiro de grama cortada e de terra molhada. Ouço Simon and Garfunkel todos os dias. Gosto de ficar em casa vendo filmes e comendo pizza. Passei uns três anos sem comer carne. Hoje, sou viciada em mignon e linguicinha. Só como cachorro quente se a salsicha estiver cortada. Não como nada que tenha cheiro verde. Adoro pimentão e alho. Tenho preguiça. Adoro dormir e choco milk da batavo. Gosto da sensação de colocar a mão dentro de um saco de bolinhas. Reclamo de quase tudo. Gosto de usar o cabelo preso e usar brincos. Mas quase nunca uso. Tenho problemas com inflamação nas orelhas por conta do níquel. Só posso usar ouro. Tenho apenas um brinco de ouro. Não fiz festa de quinze anos. Não dancei valsa. Sempre reparo no sorriso. Dentes bem cuidados me enlevam. Já tive depressão. Já tomei tryptanol 25, fluxocetina e rivotril. Tenho insônia. Não durmo no escuro. Tenho medo de espíritos. Não sou espírita. Gosto de Chico Buarque e Pink floyd. Sinto saudade de meus pais e minha irmã. Não sinto saudade de muitos amigos. Posso contar nos dedos os que sinto falta. Chorei lendo Forest gump. Adoro desenhos animados. Não gosto do pica-pau. Sou realista e prática. Às vezes grosseira. Já pensei em fazer medicina. Mas não gosto de sangue. Fiz coisas que me envergonham. Já pensei em ganhar dinheiro como modelo. Decepcionei-me. Gosto de sentir o vento batendo no rosto. Gosto de flores. Antes de dormir, passo horas imaginando. Criando. Fantasiando coisas impossíveis de acontecer. Não gosto do passado. Tento apagar muitos fatos da memória. Fiz sete anos de curso de inglês. Mas não tenho um nível avançado na língua. Gosto de Janis Joplin e Raul Seixas. Colo shoyo e molho inglês em toda comida que faço. Ouço música gaúcha e tomo chimarrão. Não sou muito chegada à televisão. Detesto o Faustão e a dança dos famosos. Não assisto novelas. Assisto filmes. Adoro sapatos e havaiana. Raramente uso tênis. Acho Ary Toledo obtuso. Mas já ri de suas piadas. Sinto pena da Tati quebra barraco e da lacraia. Já dancei boladona. Tenho os joelhos estourados e as canelas roxas. Tenho intolerância à gente porca na mesa. Abomino quando mascam chiclete de boca aberta. Tenho mania de estralar os dedos. Minha tia diz que eles vão engrossar por conta disso. Coleciono discos, bolachas de cerveja e copos de cachaça. Costumo guardar coisas inúteis e escrever acontecimentos que merecem ser lembrados daqui alguns anos. Gosto de Rita Lee e tenho total horror à Claudia Leite do babado novo. Não gosto da Xuxa. Gosto de vermelho. Não tenho relógio. Não sou organizada com o tempo. Já senti a sorumbática sensação de ver a casa sem móveis e fechada. Já me despedi de quem não queria deixar. Dificilmente lembro-me dos meus sonhos. Já sonhei três vezes com a mesma coisa e ela nunca aconteceu. Já quebrei espelhos e não tive sete anos de azar. Saia do colégio para roubar frutas no vizinho. Chorei de medo do coelhinho da páscoa. Não gosto de ano novo. Todos pulam ondinha e comem sei lá quantas uvas, jogam no mar as coisas ruins que fizeram no ano e no dia seguinte, tornam a praticar tudo novamente. Gosto dos presentes do natal. Há tempos não decoro minha árvore de natal. Não vejo graça em encher uma arvore de bolinhas e luzes sem a presença da família. Não uso de all star. Tenho dois tênis, um chinelo e vinte pares de sapatos. Adoro fotografias. Já arremessei com vontade uma xícara de chá contra um muro. Sou encrenqueira. Não consigo dormir antes da meia noite e tenho problemas para acordar cedo. Não vejo graça em palhaços. Não gosto de circo. Principalmente do circo do Faustão. Às vezes penso que nasci na época errada. Gosto de Elvis e Jhonny Cash. Gosto do meu nome, mas acho o seu significado idiota. Não gosto do Lula. Gosto de silêncio e das estrelas. Sou curiosa e chata. Vivo com dor de cabeça. Gosto da nudez das montanhas. Gosto de ser. Gosto de existir.

Entre merdas e supositórios

O fato é o seguinte: Uma bela jovem de cabelos tingidos ( sei lá que cor ), magra, não muito alta, mas também não posso dizer que baixa e com aparelhos nos dentes sofreu certo tempo da dita hemorróidas. Pobre mulher. Tão elegante tão suave ao falar e se portar, mas ao sentar... A coisa ficava feia. Sempre de ladinho ou com alguma almofadinha em baixo dos braços, ou melhor... Em baixo do... Deixa pra lá. Não havia pessoa que não olhasse para Maria Rosalice. A priori olhavam com ternura e encantamento, mas era só a mulher se ajeitar pra sentar e cruzar as pernas erguendo um lado do bumbum, sentando assim, meio que inclinada, sabe? Que o encantamento passava. Hemorróidas na certa! Querendo ou não, há certo preconceito com pessoas que sofrem... E como sofrem com esse probleminha. Não que a pessoa seja excluída da sociedade ou do grupo de amigos pelo simples fato de sofrer na hora de sentar ou cagar. Mas a questão é que isso se tornou hoje motivo de escárnio. É engraçado (para quem tem o cú livre é claro). Mas voltando ao acontecido, uma tarde muito quente e seca, Maria Rosalice se contorcia sentada no sofá. Seu ritmo intestinal modificou-se em questão de segundos, a freqüência das exonerações e a forma das dejeções também. Por via de conseqüência, começaram a surgir puxos e tenesmo, o que exacerbou o já existente estresse da pobre Maria Rosalice. Não. Pobre não. Maria Rosalice sofria de intestino preso, não de diarréia. E diarréia meus amigos só pode ser coisa de pobre. Eles não conseguem acumular nada, nem mesmo as próprias fezes. Todo pobre tem diarréia. Mas enfim, Maria Rosalice piorava a cada segundo. As cólicas intestinais aumentaram e a cada bufa quente, daquelas que passam queimando os pêlos do traseiro, ela tremia. Sentiu uma contração forte e chegou à conclusão de que seu feto intestinal estava pronto para nascer. Correu para o banheiro em passos curtos e ligeiros. Abriu as calças no meio do caminho. Maria Rosalice suava. Sentou no banheiro e soltou um grito. Algo do tipo “AAAAAAAI”. Sua amiga Jurema correu para ver o que estava acontecendo. Maria apenas falou em meio a gemidos: “MANDE A FRANCISQUINHA COMPRAR SUPOSITORIOS! HOJE NÃO VAI TER JEITO! AAAAAI”. Foi dada a largada da corrida, Francisquinha pegou sua bicicleta e correu até a farmácia para comprar os supositórios para a amiga. Quando chegou, Maria Rosalice gritou mais uma vez. Mas não de dor. Dessa vez foi de raiva mesmo:
- Você comprou o tamanho pequeno sua infeliz!
- Ora essa, coloque mais de um, garanto que você caga. – Respondeu Francisquinha virando as costas rindo.
Maria Rosalice pediu a Jurema que tirasse da embalagem três supositórios. Jurema riu, riu muito. Aquela situação estava realmente cômica. Abriu a embalagem e entregou a amiga os três pequenos supositórios. Alguns minutos após a introdução e não logrando êxito no serviço, gritou para Francisquinha, suplicando que ela fosse comprar supositórios do maior tamanho possível. A jovem pegou mais uma vez a bicicleta e foi até a farmácia. Trouxe uma embalagem grande. Com seis grandes supositórios dentro. Jurema rapidamente abriu a embalagem e entregou um para Maria.
- Dê-me logo três. Gemeu Maria Rosalice.
Jurema em meio a risos entregou os três, sentou na beirada da cama e ficou ouvindo os gemidos da amiga, sempre rindo muito, é claro. Quem não iria rir assistindo a uma cena dessas? Só quem esta enfiando os supositórios no fiofó é que não acha engraçado.
- AAAAAAAAI. Traga mais dois!
- Você está louca? Vai ter um treco. Daqui a pouco caga até o intestino.
- Ande logo Jurema, não agüento mais.
Jurema tirou mais dois supositórios da embalagem e entregou a Maria que estava pálida e com uma respiração cansada. Jurema sentou-se na cama novamente e aguardou. Não demorou nem cinco minutos e ouviu o gemido de alivio de Maria Rosalice. Sim, caros leitores, a miserável cagou. A primeira leva, ou melhor, a primeira merda veio sólida e comprida, daquelas que dão a impressão de que vai entupir a privada. Jurema foi até o banheiro, ver se a amiga já estava se sentindo melhor, mas assustou-se com o que viu. Maria estava parada, agarrada nas laterais da privada, com os pés juntinhos, como se estivesse tentando empurrar o chão. Não deu outra, chegou a segunda leva de bosta. Desta vez, veio como um patê de criança. Algo como uma pasta morna. Borrou toda a privada. Jurema foi até o armário do outro banheiro, já que era impossível entrar no mesmo que Maria Rosalice, devido a fragrância insuportável de merda mole. Pegou dois rolos de papel higiênico e abaixando-se até o chão rolou-os até o encontro da amiga que permanecia imóvel e agarrada à privada. O cheiro de fossa tomou conta da casa. Jurema e Francisquinha riam no quarto. Maria Rosalice levantou e dirigiu-se ao quarto, andando com as penas meio abertas. Deitou-se na cama de bunda para cima. Enfiou a cara no travesseiro e resmungou para as amigas, dizendo que não queria ouvir nenhum comentário sobre o episodio. Jurema, quando conseguiu parar de rir olhou para a amiga, naquela situação de merda e perguntou:
- Quer que Francisquinha vá comprar um Hipoglos agora?
No final das contas, foram contabilizados, três supositórios pequenos, cinco supositórios grandes, um pacote de chá de sene, quase um rolo de papel higiênico e uns três quilos a menos. Que bela cagada!

Bom dia Brasil

Saindo do caixa eletrônico. Sente algo perfurando suas costas. Sente frio. Percebe algo escorrendo em seu corpo. Tenta se mover e ver o que estava acontecendo. Mas está totalmente imóvel. Vira os olhos. O gosto de sangue toma conta da boca. Ouve uma conversa. Muito longe... Longe...

- Porra mano, Você atirou no velho!
- Esse cara não ia facilitar irmão.
- Como é que é veio? E agora? Fodeu.
- Corre mano! Corre. Sacaram a parada mano!
- Mas e o dinheiro do babaca? O Cara da boca quer hoje mano.
- Fodeu irmão. Depois agente resolve. Corre.

O velho cai. Morto. Em alguma esquina de qualquer cidade do Brasil às 4:30 da manhã.
Bom dia Brasil.
O dia só está começando.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O canalha mais pulcro que (não) conheci

Pensei em falar de amor hoje. Mas antes de começar a endecha toda quero fazer algumas ponderações. Quando escrevo, não penso apenas em palavras bem colocadas que demonstrem o que estou sentindo. Quando escrevo, não quero desabafar mágoas ou fazer com que as alegrias do meu dia virem uma explosão de humor e alacridade nas crônicas. Escrevo porque me sinto bem assim. Demonstro todos os meus sentimentos, minhas vontades, meus sonhos. Cito. Nada diretamente. Mas nas entrelinhas dos textos, as conquistas, as perdas. Escrever é mágico. É a maneira mais fácil de sentir-se bem. De mostrar-se bem. Posso estar parecendo um tanto quanto egoísta, quando digo que escrevo para o meu bem estar. Para mim. Mas não é exatamente e tão somente isso. Não me interpretem mal. Quero deixar claro, antes de tudo, que escrevo pensando sempre nas sensações que serão causadas em quem as lê. É maravilhoso ler e sentir o que o texto quer passar. É gratificante saber que algo, exclusivamente seu em todos os sentidos, faz outra pessoa se identificar e pensar sobre tudo aquilo que foi escrito. Lembro-me quando li pela primeira vez, o primeiro livro que tive acesso do admirável Érico Veríssimo. Um certo capitão Rodrigo. Um nobre rapaz havia indicado Ana Terra. Infelizmente não o encontrei. Não. Infelizmente não. Graças a isso, pude viver a história do Capitão Rodrigo Cambará. Bem, caros leitores, aqui começa a minha maravilhosa historia de amor. Um amor platônico. Incondicional. Vocês devem estar pensando. “Exagero, loucura...” Não. Vou explicar como tudo aconteceu. E espero que vocês consigam sentir, todas as sensações que senti ao ler o livro. Afinal de contas, ler um livro ou uma simples história não é simplesmente ler. Ler é se envolver. É sentir-se dentro da historia. Vivendo cada momento junto ao personagem. Experimentando todas as emoções. Aproveitando todas as aventuras. Ler é viver a história. E eu, bem... Eu vivi intensamente cada página daquele livro. O romance vivido por Rodrigo Cambará e a doce Bibiana Terra. Foi sem dúvida espetacular. “Buenas e me espalho, nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho”. Começou por aí. Um belo homem. Chega à cidade de Santa Fé a cavalo, chapéu caído na nuca, cabeleira ao vento, violão a tiracolo. Seu olhar parecia estar sempre chamando encrenca. Rodrigo era um apreciador de cartas, cachaça e mulheres. Um homem de espírito livre. Corajoso. Bem-humorado e sem dúvida nenhuma, encantador. Que ao conhecer a bela Bibiana, rendeu-se ao amor. O engraçado é que na época em que se passa a história, as mulheres usavam apenas roupas longas. Como diria um velho amigo meu... “Nada de expor a figura da Medina”. Enfim, o que fisgou o machão, foram as lindas canelas de Bibiana. Que quando ao entrar na charrete, ergueu o vestido, para que não sujasse a barra. Rodrigo é um personagem um tanto quanto multifacetado eu diria. Ora simpático, ora cruel. Érico Veríssimo, realmente tinha o poder de criar personagens cativantes. Agora eu pergunto apenas as leitoras. Não é de se apaixonar? A minha vontade de viver uma história como a do Capitão Rodrigo e Bibiana Terra foi tamanha, que eu comecei a buscar em todo e qualquer canto. Alguém que me fizesse lembrar o charme do Capitão. Estanho, não acham? A leitura desse romance, não nos proporciona apenas todas as emoções vividas pelos personagens. O livro é um mergulho no universo histórico da época. Todas as guerras. Governos. Toda a filosofia. É magnífico. A conduta de Rodrigo era um substrato ético, com uma mistura de bravura, generosidade e claro, fanfarronice. Assim como a personalidade de alguns heróis das epopéias gregas, Rodrigo acredita que só a guerra dá sentido à vida dos homens. Uma cena, que não pode deixar de ser lembrada e que me fez envolver inteiramente com a história, foi um duelo. Travado entre Rodrigo e Bento Amaral. Quanta coragem para um homem só. Deixou sua marca, na “cara suja” daquele ser abjeto. Confesso que minha alegria após a leitura dessa cena foi imensa. Sonhava com aquele duelo desde o primeiro momento em que conheci a figura de Bento Amaral. Apesar de suas canalhices, que não foram poucas. Foi um homem espetacular. Mas não continuarei a citar cenas do livro. E tentarei me controlar para não mais falar do romance. Caso queiram saber o fim dessa linda e envolvente história. Não pensem duas vezes. Leiam o livro. Garanto-lhes que é uma experiência magnífica. Mas antes de findar a história do meu amor platônico. Quero dizer só mais uma coisinha. Coisa rápida. Prometo. Sorte na vida teve Bibiana. Que conseguiu domar e amarrar o charmoso Capitão Rodrigo Cambará. Ah, quem dera eu poder viver a história de Bibiana. Como seria bom, se eu tivesse também o meu Capitão Rodrigo Cambará. Entretanto, esse fascínio pelo Capitão termina aqui. Sim. Assim de “sopetão”. Como todos os outros amores de minha vida. Mas quem está acostumado a ler meus textos, bem sabe que gosto de falar. Porém, irei me calar agora. Já que a minha mais nova história de amor platônico está apenas começando e ainda é cedo para contar-lhes.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Conversa

- Corte o peixe.
- Odeio peixe.
- Apenas corte, passe na farinha e frite.
- Você não está entendendo? Eu odeio peixe.
- E não pode apenas corta-lo?
- Odeio peixe.
- Faz idéia do quando você é irritante?
- Sabe... Platão disse que idéias são formas...
- Lá vem você com seus filósofos!
-... Modelos perfeitos ou paradigmas, eternos e imutáveis, constituindo um mundo transcendente...
- Você não cansa de tanta bobagem?
-... Bem, Kant acreditava que as idéias são conceitos reguladores da razão, formais e claro necessários. Hegel por sua vez, diz que as idéias são a verdade plena do ser, a unidade do conceito e do real de tal modo que todo real seria uma idéia...
-Tudo bem. Agora eu tive uma idéia.
-... Para mim, idéias não passam de uma representação mental, um conceito que temos acerca de algo... Qual a sua idéia?
-Fale sozinha. Estou de saco cheio.
-Achei que pudéssemos conversar coisas mais interessantes que peixe.
-Estou com fome!
-Coma.
-Corte o peixe!
-Já disse, detesto peixe.
-Você precisa de um namorado.
(Silêncio)
-Penso que...
-Amor menina, amor! É isso que você precisa.
-Amor oblativo, puro, próprio ou um amor platônico?
-Que diferença faz. Haja paciência!
-Faz toda a diferença... Veja bem, o amor oblativo seria algo oposto ao egoísmo, eu diria que amor ao próximo.
-Pula esse.
-O puro, é aquele que se tem apenas para com Deus...
-Você é cética demais para isso. Pula.
-Já o amor próprio é um sentimento de dignidade pessoal e de respeito por si.
-Sem comentários...
-Enquanto o amor platônico é aquele que prescinde de toda sensibilidade...
-Chega, chega! Isso só pode ser falta de sexo.
-Desisto. Realmente não se pode conversar com você.
-Corte o peixe.
-Está bem.

A velha história. – Política, políticos e uma pequena dose de Brasil.

Existe um ditado popular que diz: "futebol, política e religião não se discutem; cada um tem o seu". O problema, é que são os pontos que as pessoas hoje, mais querem aventar. Confesso que esse tipo de discussão não me agrada. Mas essa noite um velho amigo resolveu falar sobre alguns assuntos polêmicos. Por um pequeno momento, tentei expor minhas opiniões e mostrar ao integrante de mais um comitê revolucionário ultra jovem que não concordava com muito que ele falava. Não. Ele não falava, ele gritava! Gemia, gesticulava, rugia... Mas sem argumento algum. O que direi agora, talvez alguns de vocês entenda como arrogância ou prepotência, mas o fato é que não consigo discutir com gente sem contexto. A conversa chegou a tal ponto, que fui obrigada a usar de sarcasmo. E o embuste acabou virando, para mim, uma bela de uma piada. O discípulo de Che Guevara já desnorteado pelo desespero, pela falta de argumentos para discutir, decidiu então, dar-me os parabéns pelo meu futuro na carreira jurídica e aumentando o tom de voz falou com firmeza algo como "Tente não julgar o pobre, por ter furtado dez reais de um rico e ainda tente não trabalhar por dinheiro como todos fazem, mas sim pela justiça". Ora essa! Eu poderia ter explicado a ele o principio da insignificância, mas poupei-me de ouvir algum comentário escusado. De certo eu mereço ouvir isso em plena quinta-feira. Eu realmente não agüentava mais todo aquele papo de "chega de corrupção", "sinto pena dos pobres", "são pobres porque os governantes são corruptos"... Blá, blá, blá. Quem é que não sabe disso? De fato, o Brasil é uma bagunça. As leis são justas, mas a justiça nem sempre é aplicada. Mas a pergunta que eu não me canso de fazer é: Qual é o meu grau de culpabilidade por essa desordem toda? Admito caros leitores, que a política passou dos limites. Que o direito nem sempre é "direito". Mas se tem algo que não tolero é gente desonesta gritando pelos quatro cantos do mundo por honestidade. Serei mais clara, vocês ainda acreditam que a corrupção é praticada só pelo governo? Quem aqui nunca sonegou um imposto? Quem é que nunca pegou o troco errado na padaria e saiu sem devolver? Que aluno de faculdade nunca falsificou um atestado médico para abonar suas faltas? Isso tudo é lícito? Ora essa, aqui não é o país das maravilhas da Alice meu caro. E você brioso revolucionário que não cansa de reclamar de seus governantes já parou para pensar como foi que eles chegaram lá? Você votou! Aí vem o "Chezinho" me dizer, que os pobres e oprimidos vendem seus votos por misérias tomados pelo desespero, pela falta, pela necessidade. Ah, isso sim é o exemplo perfeito de honestidade. Desde quando desespero justifica ignorância? É claro caros leitores, que esse mesmo povo vendedor de votos, que detesta a política, é regido pelos que deles vivem e pouco entendem desse sistema neoliberal, são sem sombra de dúvida os principais violentados dos desequilíbrios da economia. E que bloqueados em sua "compostura", tentam abarcar todo esse processo de condução do país e, sobretudo a genialidade de seus representantes no ato da manipulação e na justificação de suas veemências eleitoreiras. Essa busca por uma sociedade perfeita não deve ser levada com toda essa revolta. Não me vejam como uma jovem seguidora de Lin Piao. Simplesmente não concordo com o rumo que essas discussões levam. Talvez se as pessoas sentassem, conversassem, tentando usar a razão e não o urro, alguma solução viria à tona. E quem sabe, quando essa solução surgisse, as pessoas pudessem agir de maneira prudente e arguta. Esse é o nosso povo brasileiro que se une para conspirar contra a politicagem, que implora para que não violem o seu direito mais inviolável chamado respeito, é o mesmo povo que esquece que a mudança deve começar por eles. Não sou nenhuma exímia pensadora política e muito menos tenho anseio a recomendar o caminho a ser tomado, mas concordo com o autor Leandro Konder que afirma que sabemos que direção escolher. Sabemos qual direção levaria o país à democracia e a justiça social, todavia, ainda não temos ciência de como seguir essa direção. Desculpe-me meu nobre amigo por todas essas ponderações, mas tive que apregoá-las aqui desta forma, já que não pude expor as mesmas durante nossa concisa conversa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

BILLY BRONCHO ( COMPLETO )

CAPITULO I

— Vou contar-lhes uma história que aconteceu há muito tempo em uma velha cidade do estado de Oklahoma no Condado de Muskogee. A cidade de Taft estava um verdadeiro caos. O xerife local, um velho conhecido por Materstoon havia sido assassinado pelo temido Billy Broncho. Foi em uma tarde quente, em frente à Capela. O vento carregava a poeira da estrada. Todos permaneceram dentro do Saloon até que o ultimo tiro fosse ouvido. Billy Broncho disparou três tiros contra o velho xerife e partiu. O Saloon do fastidioso James Westernd era freqüentado com medo. As belas moças dançavam cancã inermes. Temiam a volta de Billy. Após a morte do xerife, surgiram boatos de que pessoas teriam o visto saindo da cidade. Alguns dizem que o valentão teria partido para Kansas. Outros, porém afirmam que o bandido partiu para o estado do Alabama. Ninguém sabia ao certo qual rumo teria tomado Billy Broncho. A última vez que ele foi visto em Taft, vestia seu único traje. Chapéu de abas largas, preto. Uma bota empoeirada com esporas brilhantes. Montava seu cavalo, com nome de Nevasca. Na cintura duas armas refletiam o sol quente daquela tarde. Partiu. Não se sabe para onde, nem mesmo por que. Em uma quarta-feira a cidade de Taft estava em festa. A diligência que chegara a pouco na cidade, trouxe boas novas. O xerife Batt Wayner havia chegado. Instalou-se na delegacia que ficava na avenida principal, a poucos metros do tão freqüenta do Saloon. Trouxe com ele seu filho, o pequeno Jesse Wayner. Jesse era um aguerrido, muitas vezes atrevido. O xerife Batt Wayner sabia que ele o seguiria como xerife. Lutando pela justiça. Batt mandou seu filho para outra cidade. Temia pela volta de Billy Broncho. Os bandidos de sua gangue andavam rondando a pequena cidade. Dois meses passaram-se. Mas a cidade nunca se esqueceu do temido Billy Broncho. Alguns diziam que ouviam o galope de seu cavalo Nevasca nas noites frias e escuras. Outros diziam que ele estava na cidade, escondido. Esperando o momento certo de atacar. A recompensa para quem encontrasse o bandido foi dobrada pelo xerife local. Mas nunca naquela região encontraram alguém capaz de deter o atroz Billy Broncho. Em um domingo de festas, a cidade estava toda presente na Igreja. O soar das badaladas do sino do meio dia foi interropido por um galope distante. Não havia dúvidas. Billy Broncho estava na cidade. Na avenida de terra da cidade, apenas o xerife e mais quatro companheiros. Dick, Robert, Boss e um sujeito mal encarado conhecido por Kid Porstin. O restante da cidade permanecia dentro da capela. Avistaram dos pequenos vitrais três homens entrando na avenida. Billy Broncho vinha mais a frente. Atrás dele, Spermot e Bluebonnet Ford. Encontraram-se em frente ao Saloon. Billy vinha montado em Nevasca. Um cavalo com pêlos brilhantes e olhos atemorizantes. Vinha em passo lento. Na cintura, um cinto de couro que sustentava do lado esquerdo um revolver, com seis balas no tambor, do lado direito, um facão medindo cerca de cinqüenta centímetros de comprimento, protegido por uma bainha também feita em couro. Levava uma espingarda a tiracolo carregada com um cartucho apenas. Billy era um galante sanguinário. Vestia seu velho casaco preto carregando a poeira da estrada. Um lenço cinza no pescoço. Na face, duas cicatrizes. Nas mãos apenas um anel largo de ouro. Seu olhar era insano e sua voz sempre tranqüila. Encontram-se em frente ao Saloon do velho Westernd. Um breve silêncio toma conta da cidade de Taft. Os cinco homens trocam olhares. O silêncio é quebrado pelo xerife Batt Wayner que anuncia a Billy e seus comparsas que esta seria a ultima vez que pisariam naquela avenida. Billy move lentamente os lábios, com um sorriso burlesco deixando a mostra seus dentes amarelos e mal alinhados. Os habitantes de Taft permaneciam inquietos dentro da Igreja, sem saber o que estava acontecendo em frente ao Saloon. As mulheres rezavam impacientes. Ouviram-se tiros. Billy era mais rápido que sua própria sombra. Antes mesmo que o xerife puxasse o gatilho, acertou-o em cheio no peito. Ao lado do broche em formato de estrela que carregava pregado ao casaco marrom. A fumaça tomou conta da avenida. Corpos caíram no chão. Conta o velho Thompson que havia assistido toda a tragédia da pequena janela da capela, que apenas um dos bandidos de Billy foi morto, Bluebonnet Ford. E que Billy após ver o xerife morto na avenida banhado em sangue, sentou-se na cadeira de balanço do mesmo na varanda da cadeia. Acendeu o charuto e permaneceu ali, até que a última brasa do charuto apagasse. Logo depois, partiu acompanhado de seu parceiro Spermot.

CAPITULO II

A notícia da morte do xerife Batt Wayner havia se espalhado rapidamente. Seu filho, Jesse Wayner, soube da morte do pai por uma mensagem telegráfica. A fome de vingança do jovem Jesse tomou conta de seu corpo. E ele decide voltar a Taft e vingar a morte de seu pai. Anos se passaram. Jesse já era um rapaz forte. Castigado pela mágoa e pela sede de vingança. Seu olhar não era de um púbere de vinte e dois anos, seu olhar era triste e furioso. Não seguiu o caminho do pai, o falecido xerife Batt Wayner. Passou todos esses anos depois da morte de seu pai, escutando os boatos sobre Billy Broncho e aumentando a cada dia o seu ódio pelo bandido. Jesse era um rapaz alto. Moreno e muito atraente. Era fechado demais, por conta disso não tinha nenhum amigo. Bebia excessivamente todos os dias e freqüentava Saloons apenas para observar as dançarinas prostitutas. Jesse não era o justo que seu pai pensou que fosse. Jesse era terrível. Mudou-se para Taft em uma sexta-feira de cinzas. Apresentou-se como Jack Revenge. Não queria que nenhum habitante da cidade soubesse sua verdadeira identidade. A única coisa que Jack Revenge queria era encontrar Billy Broncho. Em uma noite de muita festa no Saloon do velho James Westernd, Jack soube que o trem que vinha do estado de Alabama estava para chegar no dia seguinte, ao entardecer do dia. Por um momento Jack teve a certeza de que Billy estaria lá. Aguardando pelo trem para mais um assalto. A cidade de Taft estava sem xerife, era certo que Billy aproveitaria esse fato para o crime. É claro, que se Billy tivesse intuito de assaltar o trem, o faria com ou sem xerife. Mas Jack sabia que iria o encontrar perto da primeira estação de trem na saída da cidade de Taft. Bebeu mais uma dose de cachaça e foi descansar. O encontro com Billy Broncho seria o grande momento de sua vida, ele deveria estar preparado para tudo. Billy Broncho era um cowboy fora da lei. Vivia à custa de assaltos a bancos, diligências e trens. Naquela noite, por mais que tentasse Jack Revenge não conseguiu dormir. Passou a noite em claro. Imaginando tudo o que aconteceria ao encontrar o bandido. No dia seguinte, levantou de sua cama de mola. Com dores das costas por conta do colchão fino da pequena e barata pensão em que passava as noites. Foi até a venda do Sr. Stuart Klyn, um velho gordo, com barbas brancas e bigode mal aparado. Na cabeça, apenas alguns fios de cabelo também brancos, porém compridos, passando pouco da altura dos ombros. Quase não sorria, mas as poucas vezes em que movia os lábios mostrava seus dentes amarelos. Alguns dentes é claro. O pobre Stuart havia perdido os dentes da frente em uma briga com um forasteiro que tentou sair sem pagar de sua venda. Era um cabra macho. Não brincava em serviço. Trabalhava com a espingarda ao lado do balcão. Pois bem, entrou na venda e comprou alguns charutos e balas para seu revolver. Jack Revenge vestia uma calça marrom, camisa xadrez, um par de botas de couro e o velho chapéu. Usava um casaco de lã quente, preto. E um cinturão com seu revolver e algumas balas compradas na venda do velho Stuart Klyn. Passou em frente à cadeia, viu a cadeira de balanço e pela primeira vez desde sua chegada em Taft, lembrou-se de seu velho pai. O xerife Batt Wayner. Olhou mais uma vez, e pode ver o pobre Batt sentado na cadeira de balanço, fumando seu cachimbo. Com o chapéu caído na testa e a estrela que carregou sempre com orgulho, brilhando no peito. Sentiu uma mistura de raiva e tristeza invadindo seu corpo. Seguiu seu caminho, voltando a olhar a cada passo para trás. Como se de uma hora para outra seu velho pai abrisse a porta da cadeia e sairia para fumar seu cachimbo em sua cadeira de balanço. Parou em frente à igreja e lembrou-se dos comentários do bisbilhoteiro Thompson que não cansava de contar sobre a morte do xerife. Voltou a olhar para a cadeira de balanço e não viu mais sentado na mesma o velho Wayner, mas sim Billy Broncho, com as mãos cobertas do sangue do velho, fumando seu cachimbo. Olhando para o morto na avenida. Sentiu ódio. Montou no cavalo, de nome Tufão e seguiu caminho até a montanha com a esperança de encontrar Billy Broncho. As horas passaram lentamente. Jack sentia-se cansado. Por alguns momentos até fechou os olhos, lutando contra o sono. O dia foi embora. O sol se despedia de Taft e escondia-se atrás das montanhas. Jack precisava ficar em alerta. Levantou-se e permaneceu ali, por mais algumas horas escorado em um tronco de arvore em meio à mata. Ouviu algum barulho vindo do outro lado. Algo como batida de pata de um cavalo na terra úmida. Não. Eram dois cavalos. Jack teve certeza que era Billy Broncho e seu comparsa Spermot. Já estava escuro, apagou seu candeeiro com um sopro silencioso e ficou na espera. O barulho do trote dos dois cavalos cessou. Billy Broncho desceu até os trilhos do trem. Jack tremia. Uma mistura de medo e ódio. Billy firmou o pé esquerdo no trilho e permaneceu ali, até que sentisse o tremer do mesmo e ver as pedras rolando do trilho. O trem estava chegando. Spermot empilhou madeiras no meio do trilho com a ajuda de Broncho, que subiu na pilha de tocos e madeiras secas e esperou pelo trem. A estrada clareou com as luzes e as faíscas que saíram do freio do trem que parou bem em frente a Billy Broncho. Spermot e Billy entraram no trem, saquearam os cofres e mataram alguns machões que tentaram resistir. Jack ouvia o choro das crianças e podia sentir o cheiro do medo do maquinista e dos demais passageiros do trem. Quando Billy saltou do trem, Jack pode ver atrás de algumas arvores uma arma brilhando, apontando para Billy. Jack não poderia deixar que alguém matasse Billy, todo seu trabalho, toda a sua luta para encontrar Billy seria em vão e seu sentimento de vingança jamais acabaria. Sacou a arma e atirou contra o estranho sujeito do outro lado da mata. Um tiro certeiro. Billy assustou-se. Olhou para trás e viu o sujeito caído. Spermot estava imóvel, Billy sabia que o tiro não havia saído do revolver de seu comparsa. Olhou em volta da mata e pode ver Jack em pé. Com a arma ainda apontada para o outro lado. Foi em direção do jovem Revenge. Jack tremia, suava frio. Talvez essa fosse a hora pela qual ele esperou a vida inteira. Billy aproximou-se estendeu o braço e cumprimentou Jack. Sem muita cerimônia convidou-o para tomar uma cachaça como forma de agradecimento por ter salvado sua vida. Jack aceitou. Era o que ele queria. Aproximar-se de Billy, conhecer seus pontos fracos e assim poder matá-lo.

CAPITULO III

Billy, Jack e Spermot passaram alguns dias na cidade de Porter que fica aproximadamente a 12 km de Taft. Uma cidade pequena com pouco mais de 372 habitantes. Era mais uma cidade fantasma do velho oeste. Com apenas uma avenida e assim como Taft, havia apenas um Saloon, uma cadeia e uma Igreja na avenida de terra. Os três freqüentavam diariamente o Saloon do velho amigo de Billy, Mac Cross. Um sujeito feio e trapaceiro. Aproveitava-se dos velhos bêbados para cobrar algumas doses de cachaça a mais. Passavam as noites na antiga pensão da Sra. Besterson. Uma senhora gorda com bigodes e cabelos desarrumados. Vestia sempre o mesmo avental lilás. Sempre sujo. Um lenço vermelho e lábios sempre cobertos por batom vermelho também. Usava sapatos de salto baixo, pretos. Um dos sapatos era furado na ponta e o outro gasto na sola. A fachada da pensão era de madeira velha, empoeirada. No café da manhã, servia sempre pão caseiro, carne seca e ovos mexidos. A Sra. Besterson tinha duas ajudantes. Duas belas moças, de cabelos presos com lenço e aventais também sujos. Eram muito bem prendadas. Cozinhavam, limpavam e bordavam quando não havia nenhum hóspede na pensão. O que não era raro, já que poucos chegavam à cidade de Porter. Em uma noite fria, Jack deitou-se na cama ao lado de Billy que já dormia. Notou que o fora-da-lei dormia com o revolver nas mãos sobre o peito. Era estranho, mas o ódio que Jack sentia pelo bandido era tão grande que ofuscava o medo da morte. Acordaram cedo na terça-feira. Os três, Billy, Spermot e Jack assaltariam o banco da cidade de Redbird a 6 km de Porter. Montaram em seus cavalos e partiram antes mesmo do sol nascer. Não havia plano algum. Apenas entrariam, renderiam os guardas e após abrir os cofres voltariam para Porter. Chegando a Redbird foram direito ao banco. Entraram, renderam todos e abriram os cofres. Billy ao virar-se para Jack, quando estavam saindo do bando, viu o amigo apontando-lhe a arma. Os dois permaneceram parados, um de frente para o outro. Jack com a arma apontada olhando fixamente nos olhos de Billy, que continuava com a arma abaixada e com um sorriso mordaz nos lábios. Jack voltou a si, abaixou a arma e sorriu. Billy achou estranho seu comportamento e seguiram para Porter sem trocar nenhuma palavra. Para comemorar o saque bem sucedido, foram ao Saloon naquela noite. Mas Billy ficou na pensão e deixou que seus dois companheiros fossem sozinhos. Spermot e Jack beberam e jogaram a noite inteira. Na saída Jack avistou uma bela jovem saindo do camarim das dançarinas de cancã. Ela vestia um vestido vermelho típico daquela dança, com babados brancos e no cabelo, plumas pretas. Tinha no braço uma fita de cetim preta com uma enorme rosa vermelha. Era linda. Seus lábios carnudos e vermelhos, seus olhos negros como o seu cabelo longo e liso. Uma pele branca e macia como veludo. Tinha pernas muito bem torneadas e usava meias de renda preta e um par de botas com um salto muito alto. Jack desviou seu caminho e foi atrás da jovem. Spermot estranhou o desaparecimento de Jack e saiu atrás do comparsa. Revenge encontrou a moça em frente ao Cabaré, também do proprietário Mac Cross. Ela parou, sorriu e pediu a ele que entrasse. Apresentou-se como Susie Loafer. Spermot o viu entrando no prostíbulo com Susie e o seguiu. Passaram a noite juntos. Jack estava encantado com a beleza Susie. Queria tirá-la dali. Casar-se-ia com ela e viveriam em Taft. Perguntou-lhe sobre Billy Broncho. Susie falou do bandido com indiferença, como se nunca tivesse o visto. Jack então, perdido de paixão revelou seu segredo para a moça. Disse-lhe que era filho do xerife Batt Wayner, morto por Billy Broncho e que teria voltado a Taft para vingar a morte de seu pai e acabar com Billy. Ao voltar para a pensão encontrou apenas Billy. Spermot foi atrás de Susie e a obrigou a contar tudo o que aconteceu entre ela e Jack na noite passada. Susie implorou para que Spermot não fizesse aquilo, mas ele era fiel ao seu amigo. Jack saiu logo após o almoço, queria encontrar Susie. Não sabendo do paradeiro da moça voltou para a pensão. Ao chegar, encontrou Susie nua e caída banhada em sangue. Ao seu lado, Billy Broncho sorria dizendo a Jack que Susie era sua e de nenhum homem mais. Jack tentou explicar alegando que não sabia do envolvimento dos dois. Spermot se intromete na conversa e apenas diz: “Jesse!”. O filho do xerife para. Não sabia mais o que iria acontecer ali. Sacou a arma, apontou para o bandido. Mas nada aconteceu. O duelo foi marcado para o meio dia do dia seguinte. A honra de um homem, segundo Billy, é lavada em um duelo. E há tempo ele não se divertia com um duelo. Nada melhor que unir o útil ao agradável. Spermot e Cross eram as duas testemunhas do duelo. Explicaram as regras. Cinco passos e atirem a qualquer momento. Apenas uma bala para cada. Caso algum erre o tiro, deveria permanecer imóvel esperando pelo tiro do inimigo. O sino da Igreja bate as doze badaladas do meio dia. Jesse e Billy caminham lentamente os cinco passos. Param. Por um segundo apenas trocam olhares. Billy sorria. Jesse puxa o gatilho enquanto Billy arrumava o charuto para o canto da boca. Jack lembra-se de seu velho pai e dispara contra o fora-da-lei Billy Broncho. A fumaça da pólvora acaba. E Billy permanecia ali, em pé sorrindo para Jesse Wayner. O bandido arremessa seu charuto longe e atira. Jesse cai morto. Billy olha para o cadáver ainda sorrindo, arruma o chapéu que estava caído sobre a testa e segue embora com seu comparsa Spermot. A notícia chegou a Taft muito rápido. A história do filho do xerife Batt Wayner que voltou para vingar a morte do pai. Foi considerado um herói, velado e enterrado ao lado do túmulo do velho Batt. Taft estava perdida. Não havia mais lei. Os bandidos tomaram conta da cidade e os habitantes nada puderam fazer se não acostumar-se ao perigo.

CAPITULO IV.

Foi em uma noite de muita festa na cidade de Porter que Billy Broncho conheceu a bela e indomável Lola Lovely. O saloon do velho Mac Cross estava cheio. Broncho entrou, pediu uma dose e percebeu olhares estranhos vindo de uma mesinha no canto mais escuro do saloon. Bebeu a cachaça num só gole e batendo com o copo no balcão olhou em direção da mesa. Um rapaz muito alto, de pele escura e bigodes mal feitos saltou da cadeira em direção a Broncho. O jovem vestia calças pretas, um casaco sujo e um chapéu de abas largas. Lançou um olhar atemorizante para Billy que sem pensar duas vezes levantou-se para arrostar o púbere metido a valentão. Bastou um murro para o jovem cair sobre a mesa e derrubar algumas garrafas. E foi exatamente nesse instante que surgiu em frente a Billy uma mulher maravilhosa. Lola Lovely. Vestia calças justas de couro marrom, uma camisa branca e um colete preto. Trazia um cinturão também de couro, com um punhal de lâmina dupla e cabo preto. No cabo brilhavam três pedras vermelhas. Lola tinha um cabelo longo, preto e com alguns cachos nas pontas. Seus lábios vermelhos e carnudos realçavam ainda mais sua beleza. Dona de um olhar intenso e perspicaz atirou-se na frente de Billy, tirando o punhal da cintura, e partindo para cima do homenzarrão. Billy desviou da moça, não queria feri-la. Ela insistia nos ataques, até que Broncho perdeu o pouco de paciência que lhe restava. Segurou a bela moça pelos braços e tascou-lhe um beijo. Lola quando conseguiu se livrar dos braços fortes de Billy revidou com um soco judicioso nos lábios do atrevido, correu para fora do saloon, montou em seu cavalo e desapareceu na noite. Billy não conteve o riso. Acendeu um charuto, bebeu mais algumas doses e depois foi para a pensão da Sra. Besterson, onde ele estava instalado. Naquela noite ele não pregou os olhos. Ficou lembrando-se do episódio do saloon e claro, nos belos lábios de Lola. No dia seguinte, após comer o velho pão caseiro com carne seca e ovos mexidos do café da manhã, feito pelas duas moças que serviam a Sra. Besterson, voltou ao saloon a fim de encontrar o amigo Mac Cross. Billy queria saber sobre a moça da noite passada. O velho Mac bebia escorado no balcão com outro homem mal encarado. Billy chegou sem cerimônias, perguntando sobre a moça arrojada que lhe atacara na noite passada. Mac Cross abriu um sorriso amarelo e contou a Billy que era irmã do jovem que ele havia atacado na mesma noite. Lola Halsey, mais conhecida por Lola Lovely. Era filha do velho John Halsey, o qual era dono de um armazém. Broncho deu de ombros, virou as costas e dirigiu-se ao tal armazém. No caminho do armazém sentiu uma sensação estranha. Estava sorrindo sozinho e a única coisa que queria, era ver Lola Halsey, sua bela Lola Lovely. Ao chegar ao armazém deu logo de cara com o velho Halsey, um sujeito dono de um rosto cansado e castigado pelo tempo. Lola apareceu em seguida com os cabelos presos, deixando a mostra seus ombros e pescoço. Era magra, belíssima. Ao deparar-se com Billy, cuspiu nas botas sujas de poeira do cowboy e saiu. O velho Halsey apenas sorriu para Billy, mostrando-se orgulhoso pela atitude da filha. O encanecido conhecia bem o gênio da jovem e sabia bem que por trás de tanta hostilidade se escondia um pouco de sua mãe. Catherine Halsey foi a dama mais cobiçada de Porter. Sempre usando longos vestidos com decotes surpreendentes arrebatou o coração do velho John. Faleceu no dia em que Lovely nasceu e a moça cresceu criada pelo pai, talvez por isso tinha um gênio difícil. Saiu igual ao velho. Lovely sentia um desmesurado desagrado e total aversão por Broncho. Mas Billy sabia que ia poderia domar a fera e era isso que ele queria. Passava os dias sonhando com a sua Lola. A indócil e bela Lola.

CAPITULO V.

As coisas foram acontecendo mais rápido do que Billy esperava. Em uma tarde fria e chuvosa, Billy estava de partida para Redbird, queria resolver alguns negócios pendentes por lá. Soube que Tomas Guild estava passando um tempo na cidade. Billy tinha algumas contas para acertar com o cowboy. Iria para Redbird e depois retornaria a Porter a fim de amarrar-se com Lola. Ao sair da cidade, passando por um campo afastado ouviu gritos de uma mulher. Billy jamais em suas andanças preocupou-se em socorrer alguém. Mas dessa vez, não se sabe por que, Billy virou seu cavalo a galope, riscou de espora e chicote, sangrou a anca do velho Nevasca. No alto de uma montanha, numa casinha feita de sapé, apeou do cavalo e pela fresta da janela, pode ver iluminado por um pequeno lampião quase apagando, uma jovem no chão e um cabra com uma arma na mão. Observou por mais um instante e não teve dúvidas. Era ela, Lola Lovely. Tão indefesa e bela, como ele jamais a tinha visto. Bateu com as botas sujas na porta da casa velha, puxou o gatilho e acertou no inerme que maltratava sua bela Lola. Puxou-a pelo braço para que ela pudesse se levantar. Lovely olhou para Broncho com ternura, mas desviou o olhar quando percebeu que ele notara sua benevolência. Agradeceu sem muita cerimônia e foi saindo pela porta. Billy segurou-a pela mão macia e delicada, deu-lhe um beijo doce e suave, algo que jamais ele havia feito e ela se rendeu aos encantos do velho Billy. Amaram-se loucamente e passaram o resto do dia e a noite na pequena casa de sapé. Juraram amor eterno e fizeram planos para o futuro. Ao amanhecer, Billy acordou sua bela mulher com um beijo e disse que estava de partida para Redbird, que iria acertar umas contas com o nefasto Tomas Guild e depois voltaria para levá-la embora. Lola percebeu o olhar furioso de Billy e pediu que ele ficasse. Falou a seu amado que não se sentia segura e que temia que algo ruim acontecesse a ele e ela não poderia mais viver sem ele por perto. Billy apenas beijou-a intensamente e partiu deixando a jovem aos prantos segurando o lenço velho e empoeirado que Broncho deixara para ela.
Ao chegar a Redbird Billy percebeu que a cidade não era mais a mesma. O xerife havia sido morto e os presos foram soltos da cadeia. Já era tarde quando chegou e foi direto ao Saloon, sabia que Guild estaria por lá. Ao entrar, notou que o bar estava vazio, com apenas uma mesa ocupada por quatro homens barbados. No canto esquerdo da mesa, estava Tomas Guild e ao seu lado seus comparsas Kid Moret, Ben Rolf e um velho gordo conhecido por Jack Weeton. Pediu uma dose de cachaça e fez sinal com a cabeça para que Guild se aproximasse. Os quatro homens reconheceram o rosto do afamado Billy Broncho e levantaram-se puxando os revolveres das cintas cercando Billy contra o balcão. Billy sacou o revolver, atirou uma garrafa de conhaque para cima e em seguida acertou no peito do truanesco Weeton. Kid atirou no braço de Billy, mas caiu em seguida, pois um velho de barbas brancas saiu de trás do balcão e acertou-o na cabeça com uma velha garrucha. Billy sorriu, agora era ele e Guild. Os dois homens se olharam por alguns instantes, Billy sorria, mas Guild permanecia com a expressão imóvel e rude. Alguns curiosos ouviram os tiros e foram até o saloon ver o que estava acontecendo. Pararam na porta e ficaram assistindo ao duelo dos dois mais famigerados cowboys do estado de Oklahoma. O silêncio que tomava conta do Saloon de Redbird foi quebrado pelo som de um tiro. Guild acertou Billy no peito com um tiro certeiro. Antes de cair banhado em sangue, Broncho atira contra Tomas Guild abrindo um buraco em seu pescoço. Os dois corpos ficam estendidos no chão sujo de poeira e sangue. Antes de fechar completamente os olhos, Billy se lembra dos olhos de Lola e então tudo escurece. Os curiosos correram espalhar a notícia de que Billy Broncho e Tomas Guild teriam se matado no Saloon do velho Hilbert Lokhan. A notícia chegou à cidade de Taft, onde todos festejaram a morte do cowboy fora-da-lei que tanto havia assombrado a vida dos moradores da pequena cidade. Porém, quando a notícia chegou a Porter, apenas uma pessoa foi até a Igreja rezar pela alma de Billy. Lola Lovely vestiu-se de preto e viveu uma imensa melancolia.

CAPITULO VI

Dois meses se passaram e Lola ainda vestindo seu traje de luto recebeu a visita de um velho de barbas brancas, jamais visto na cidade de Porter. Era o velho Hilbert Lokhan. Apresentou-se a moça como amigo de Billy Broncho e deu-lhe o recado mandado pelo mesmo. Billy estava vivo, ficara gravemente ferido no duelo com Guild, mas sobrevivera. Contou a jovem que seu amor o esperava na casa de sapé onde um dia a salvara. Lola Lovely agradeceu ao velho, juntou seus pertences o mais rápido que pode, beijou a testa enrugada de seu velho pai e partiu montada em seu cavalo em direção à casa de sapé. Correu o máximo que pode, sentia a brisa gelada cortando sua face, mas não pensava em outra coisa senão encontrar logo o seu Billy. Ao chegar à casa, Billy estava na porta esperando por ela. Abraçaram-se fortemente e então Lola soltou seus braços, deu-lhe uma bofetada no rosto e sorriu docemente.
Passaram-se muitos anos e cada vez menos se ouvia falar do nefário Broncho. As lendas e histórias sobre o cowboy foram sendo esquecidas com o tempo...
— Mas o que aconteceu com ele vovô?
— Ah, o temível Broncho hoje está velho e cansado das aventuras de cowboy fora-da-lei... Mas agora entrem que vovó Lola deve estar servindo o jantar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O Triste fim de Arniltina José Pinto.

Arniltina José Pinto. Quando infelicidade tem essa moça. Moça bonita. Cabelos pretos, longos com cachos bem definidos. Olhos castanhos. Sobrancelha alta. Boca desenhada e bochechas rosadas. Estudante de letras. Inteligente. Boa moça. Vai todos os dias à igreja. E pede a Deus que perdoe a santa ignorância de seus pais. A pobre moça sofre tanto. Arniltina... Ou melhor, Tina. ( Ela prefere ser chamada assim.) Não suporta preencher fichas de inscrição. Tem horror a lugares que pedem os documentos. Quanto pânico lhe causava o simples pedido. Qual seu nome? Pensou em entrar com um processo para mudança de nome, mas gastaria demais com um advogado e desistiu. Podre Arnil... Opa. Pobre Tina. Não compreendia o motivo infeliz de seus pais terem resolvido juntar seus nomes. Arnildo José e Albertina. Que maldita idéia tiveram os dois. Não pensaram no trauma que causariam a sua inocente filha. Chegou ao ponto de contratar uma moça para ir buscar seu passaporte que estava pronto. Por conta da vergonha de pegar o documento e afirmar: Sim, eu sou Arniltina José Pinto. Odiava a hora da chamada na escola. Quando criança não queria fazer novas amizades. Abominava apresentações. Arniltina é uma jovem belíssima. Nunca teve namorado. Teme morrer solteira. Acredita que homem nenhum, irá se render aos seus encantos depois de ouvir seu nome. Se é que isso pode ser chamado de nome. Podre Arniltina. Na pré-escola dava seu lanche inteirinho para a coleguinha que respondesse presença em seu lugar. Mesmo ela estando dentro da sala de aula. Não suportava os olhares de todos, até mesmo das tias quando chamavam: Arniltina José Pinto. Quando seus planos de comprar as colegas não lograva êxito. E ela era obrigada a responder chamada, a voz não saía. Ela mal conseguia levantar a mão. Suas bochechas rosadas tornavam-se roxas de vergonha. E quando percebia já estava quase embaixo da carteira. Pobre jovem. Tão linda. Com um nome tão... Tão... Excêntrico? Era jovem acautelada. Decidiu que jamais teria filhos. Ficava imaginando a vergonha dos mesmos nos dias das mães. Ter que apresentar na escola sua mãe. A Sra. Arniltina. Não queria exprobrar um filho ou filha a ter uma identidade, onde no local do nome dos pais constasse o terrível nome que carregava. Arniltina? Bem, a jovem era tão bela. Tão cheia de graça. Sonhava em pousar nua em uma revista famosa. Mas sentia-se um monstro ao pensar na manchete. – CONFIRAM AS FOTOS DA BELISSIMA ARNILTINA JOSÉ PINTO. – Quem iria comprar uma revista dessa? Ou pior, jamais algum produtor chegaria a ela dizendo: “Ouvi seu nome, quer pousar nua na minha revista?”. Que triste fim teria Tina. Nenhum compositor jamais faria uma bela canção em homenagem a ela. O que usariam para rimar com Arniltina? Botina? Cortina? Não. Ela jamais teria uma musica homenageando-a. Pobre tina. Era perdidamente apaixonada pelo ator Thiago Lacerda. Tina sonhava com o dia em que encontraria o ator. E como esse mundo da voltas. Um belo dia, nossa querida Arniltina José Pinto resolveu fazer uma viagem para o exterior. Lá quem sabe, achariam seu nome exótico e não burlesco. Enfim, chegando ao aeroporto, mascando seu chiclete velozmente pois já tinha passado pelo constrangimento de apresentar sua passagem na entrada. Ela para. E se depara com o amor de sua vida. Sim, caros leitores. Era ele. Thiago Lacerda. Arniltina ficou tão empolgada, tão alvoroçada que não pensou em nada, nem mesmo no seu putrefato nome. Correu na direção de seu amor. Apanhou papel e caneta da bolsa, olhou bem nos olhos do ator e pediu um autografo. O Belo ator, não pensou duas vezes. Pegou o papel, em seguida a caneta, deu um belo sorriso para a jovem. Moveu os lábios e disse: “Você é muito bonita, jovem. Qual seu nome?” Arniltina sentiu seus pés saírem do chão e naquele mesmo instante, engasgou com o chiclete. Foi ao chão e morreu ali. Na frente de seu amor. No seu enterro, estava gravado em sua sepultura. Aqui descansa a doce Arniltina José Pinto. Saudades, seus pais, Arnildo José e Albertina.

Um belo arranca-rabo.

Há quem acredite que tamanho é documento. Pois eu discordo. Tamanho nunca foi e nunca será documento. Dizem que mulher não pode se meter em encrenca de homem. Mas ontem, parei e perguntei-me. Por que eles se metem nas nossas? Um amigo disse-me que ver mulher apanhando é feio e ver mulher batendo não é nada bonito. Bem, acontece que em certos momentos da vida. Sentimos o corpo tremer, saímos do chão. Nossos olhos não mais enxergam e não podemos ouvir nada. Em algum momento da vida, sentimos raiva. Sentimos vontade de sair batendo em qualquer um que aparecer em nossa frente. Ontem, arrumei uma encrenca. Encrenca bonita. Comprei uma briga. E paguei com muito gosto. Quem nunca se meteu em um arranca-rabo que atire a primeira pedra! Pode ser que você nunca tenha agredido alguém fisicamente. Mas é impossível que ninguém nunca tenha tido sequer um bate-boca. Sempre repudiei brigas. Detesto baixaria. E acredito que tanto homem quanto mulher brigando, é coisa grotesca. Já me meti em algumas. Mas fazia muito tempo que não topava de frente com uma chinfrinada como na noite passada. Assistimos diariamente nos noticiários estupefatos com a violência. Chega a ser engraçado. É inacreditável como todos os seres humanos possuem dentro de si um ódio colossal ao próximo. A violência faz parte da nossa natureza. E todos nós comentemos atrocidades, não tão banais como as dos telejornais, mas com a mesma intensidade de fúria. Não aceitamos as diferenças. A violência acompanha-nos desde o dia da nossa criação. E não me venha com a conversa de que você é pacifico. Temos dentro de nós, um urso hibernando. Acredite. Um dia ele desperta e pronto. Ta feita à encrenca. Não se engane caro leitor, qualquer ofensa é um filé mignon para seu urso despertar. Futebol, trânsito, um simples olhar, um empurrãozinho... Tudo é motivo para um belíssimo arranca-rabo. O barulho na casa do vizinho, o troco errado, uma fechada, uma buzinada a mais. É briga na certa! Pesquisas científicas explicam que o pior ato de violência acontece nos primeiros segundos seguidos da ofensa. Não nos controlamos. Sentimo-nos afrontados e afrontamos. É assim que funciona. Caos define minha noite de ontem. Confusão, desordem. Qualquer atitude pode-se tornar um caos. Qualquer palavra pode ser a gota d’agua quando todos estão com os nervos a flor da pele. Não sou encrenqueira. Não gosto de tumulto. Mas ontem, foi um Deus-nos-acuda. Tapa pra cá, gritos pra lá. Todos tentavam segurar. Mas aquilo não poderia acabar ali, daquela forma. Eu não via mais nada a minha frente. Ela era o alvo... Ela, ela... Ela. Eu a procurava no meio daquela zorra toda. Uma amiga entrou na encrenca. Amigos são para essas coisas. Eu compro briga, quando a amiga vale a pena. A discussão não foi muito longe. Enquanto seguravam minha amiga, pulei por cima de todos. Em busca do alvo. Em busca dela. E acertei em cheio. Foi um tapa certeiro. Na mosca! Pensei. Eu e minha amiga, não queríamos que terminasse com apenas um tapa. Aquele ser merecia muito mais. Sentimos muito, por nossos amigos ter-nos segurado. Ora bolas, na briga deles nós deixamos o “pau comer”. Eles que nos deixassem brigar em paz. Temos nosso direito. Direito de extravasar. De perder a estribeira. A festa acabou ali. Ela foi embora chorando. E eu minha amiga? Bem, para nós aquilo tudo não terminou ali. Parecíamos duas loucas, pulamos muro, batemos em nossos amigos, não queríamos terminar aquela confusão. Mulher apanhando é feio, mulher batendo não é bonito. Mas caro leitor, não posso negar, muito menos omitir, a maravilhosa sensação que se sente, ao conseguir acertar o alvo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A soberania da privada.

O banheiro é sem dúvida o ambiente mais imparcial que existe. É nele que as pessoas se sentem elas mesmas. Soltas... Relaxadas. Você não precisa contrafazer, muito menos ocultar nada. Existe certo respeito pelas pessoas que estão no banheiro. Já notaram?
- Cadê o João?
- Ta no banheiro.
Pronto! Ninguém mais comenta nada sobre o João. Ele está no banheiro. Ninguém interrompe. Ninguém perturba. O banheiro oferece a você um momento único. É você com você. Ninguém percebe, mas hoje em dia as casas possuem mais vasos sanitários do que gente dentro da residência. Cada um quer o seu próprio banheiro. Quer ter seu momento de libertação e sentir o maravilhoso estado de pureza que todos, todos mesmo, sentem ao adentrar no banheiro. Sem que alguém entre minutos depois e reclame da fragrância, da amálgama, da pasta de dente aberta. E para comprovar minha tese de que o banheiro é sem sombra de dúvida uma das partes mais importantes da casa, vou contar-lhes sobre uma matéria que li alguns dias atrás sobre a mais nova invenção da china. Bem, arquitetaram agora o maior banheiro público do mundo, com mais de seis mil metros quadrados. Diz um dos funcionários da grande construção que as pessoas saem do banheiro muito, mas muito felizes. A fachada é toda decorada com um rosto egípcio e uma música calma se espalha pelas mil privadas o dia inteiro. É a realidade. O povo gosta de um banheiro. Seja ele cheiroso tranqüilo ou até mesmo um banheiro público, fedido e movimentado. Dependendo da urgência, ninguém liga para o estado do banheiro. Deseja ele, mais que qualquer coisa. Em uma casa cheia, sem duvida o melhor cômodo, é o banheiro. Quer lugar mais tranqüilo pra sentar e pensar? Tem gente que até leva livro ou jornal para o banheiro. É fato. A privada reina. É a soberana da casa. Já pensaram na carga de vida que esse orifício que você senta todos os dias carrega? É um buraco de cogitações densas. As pessoas se mudam, levam todos os móveis, deixam apenas a soberana. Esquecida na casa vazia, esperando pelo novo rei ou rainha que ocupará o trono sem ter noção da imponente acuidade que aquela coisa pequena, gelada e gloriosa tem. As pessoas só dão importância a “majestosa”, quando sentem o coração bater em outro lugar, se é que vocês me entendem. Vivem suas vidas tranqüilas, mas em algum momento do dia, sentem aquela belíssima cólica intestinal e em seguida aquela tão conhecida bicada na roupa de baixo. Percebem que a situação é crítica e não conseguem pensar em mais nada, a não ser um esplêndido banheiro, com uma privada branca, brilhando, quase que sorrindo para elas. Naqueles momentos em que você transpira, suspira e se contrai de maneira cômica. Sabe? Aquela hora que você começa a andar com passos curtinhos, mas apressados. Como se estivesse em uma marcha atlética. Pilhérico demais. Lembrei-me agora de outra notícia bizarra que li na internet em um dia que nada tinha a fazer. Confesso que não consegui acreditar na matéria, mas não custa nada contar a vocês sobre a notícia. Em Uganda, um país africano, aconteceu que 100 pessoas foram presas por não terem banheiro em casa. Diz o chefe de polícia que as detenções foram feitas pelo fato de o país estar vivendo uma epidemia de cólera que já havia infectado 164 pessoas. Acredite se quiser. Hoje em dia, até preso você vai se não tiver um banheiro em casa. Eu acho graça. Mas deixando essa notícia peculiar de lado e voltando a soberana. Toda casa, ( com exceção do país de Uganda, há-há.) tem um banheiro. Todo banheiro tem uma privada, e toda privada tem merda. Merda esta, que descarregamos todos os dias, assim como descarregamos nossa raiva. Eu defeco, tu defecas, ele defeca... Todos defecam. Não despreze seu banheiro, a qualquer instante você pode receber o tão conhecido “chamado da natureza”.

A coisa tá feia...

Eu estava saindo do Shopping em uma tarde qualquer. Não me recordo o que eu tinha ido fazer lá. Mas isso não importa. Não que o que eu vá contar agora tenha alguma importância, mas foi o que me levou a escrever esse texto. Bem, como disse, estava saindo do shopping. E sem perceber esbarrei em uma menina. Voltei, olhei para trás e me desculpei. “Desculpa é o caralho” Foi o que ouvi daquele ser vestido de preto, com um tênis que mais parecia uma sapatilha xadrez e olhos rebocados de lápis preto. Digo rebocado, porque aquilo passava longe de uma maquiagem bem feita. Sim. Estavam rebocados. Mas o que me deixou mais azucrinada, não foi a resposta grosseira e medonha que eu recebi. Foram as gargalhadas. Gargalhadas dadas por mais ou menos uns dez, daqueles seres burlescos. Que espécie de educação aquelas coisas ridículas receberam? Que mãe ou pai em sã consciência deixa um filho se vestir e agir daquela maneira medonha? É como diria Elis Regina, “Tá cada vez mais down no high society”. Bem, diante disso tudo. Resolvi deixar clara a minha aversão a esse tipinho “sentimental”. Titulam-se Emos. Mas os pobrezinhos mal sabem a origem desse termo. Não chorem queridos. A tia vai explicar da onde surgiu esse termo e por que. Tá bom? Vamos lá. Muitas são as teorias para o surgimento desta merda. A mais aceitável creio que seja a seguinte. Na década de 80 queridinhos, a revista Skate Thrasher, criou esse termo EMO, para descrever uma nova geração do punk rock. O hardcore emocional. Algumas bandas que se destacavam, com músicas “quiet/loud”, como a Embrance e Fire Party. Nessa mesma época, bandas como 7 seconds e Scream também aderiram ao movimento “emocore”, criando musicas mais introspectivas e acrescentando influências do rock alternativo. Mas foi em 1991, meu caros emozinhos que a onda do emocore explodiu, junto da banda Heroin que tocavam um estilo caótico. ( Insuportável eu diria.)
Segundo a cultura alternativa, diz-se ser emo, aqueles que se demonstram pessoas sensíveis, de baixo-astral. ( Será que eles já pensaram em assistir Xuxa contra o baixo-astral? ). No Brasil, meus pequeninhos, essa onda imbecil apareceu com forte influencia norte-americana em 2003. Mas ela não influenciou apenas no estilo musical. Os jovens, passaram a se vestir com trajes pretos, listrados, Mad Rats, cabelos coloridos e franjas caídas sobre os olhos. Passaram a andar em bandos. É minha gente, foram-se os dias dos neo-hippies, patricinhas e góticos. A moda agora é ser emo. Vamos todos andar abraçadinhos, chamando nossas amigas emos de “marida” e fazer tatuagens de canetinhas na mão para mostrar o quanto amamos nossos amigos emos. Vamos pintar nossas faces com lapis preto e fazer do nosso cabelo um belissimo catálogo de tinta. Vamos usar palavras apenas no diminutivo. Fica tão bonitinho né? Mas principalmente, vamos chorar juntos, ouvindo nossas belas músicas com os mesmo temas, falando de desilusões amorosas e problemas familiares. Infames. Mas é claro que isso tudo tem uma valorização indiscutível de todo o comercio. O que mais se vê agora, são lojas para essas criaturas estranhas. Tudo o que se vende, é propositalmente triste, com toda aquela estética deprê. É, essa droga virou um contágio mais potente que a tal da gripe aviária. Agora todo mundo quer ser emo. Todo mundo quer ser cool. Ora bolas, vão se catar. Onde fica a personalidade desses tipinhos? Desde quando, precisamos ter uma aparência medonha e um comportamento completamente mentecapto para sermos aceitos em algum grupo? Quem precisa de um grupo? Esqueçam a moda. A moda tornou-os ridiculos e insuportaveis. Antes de terminar, quero fazer apenas mais uma colocação. Não pensem, meu queridinhos, que estão sendo “diferentes” agindo dessa maneira. Não chorem com o que direi agora... Mas vocês são ridículos.

A bola vermelha

A moça fazia espetáculos. Ganhava seu dinheiro à custa de pequenas apresentações. Jogava as bolas para cima, pulava ou girava ao mesmo tempo e ainda as pegava no ar. Era tudo tão simples para ela. Jamais havia deixado uma bola cair. Era mecânico. Ela nem mesmo se preocupava com o movimento que teria que fazer, era tudo automático. As pessoas se encantavam com tamanha precisão e suavidade dos movimentos. Mas aconteceu um dia, em meio de uma apresentação. A jovem ouviu um “te adoro” tão sincero vindo da platéia que não pode controlar os próprios movimentos por um pequeno segundo. Pequeno, porém suficiente para deixar a bola vermelha cair.

Caso Isabella, quem agüenta?

O caso realmente chocou. Sim, sim pobre menininha. Mas a questão é que desde que a menina foi encontrada morta a mídia não tem mais o que fazer. Não tem mesmo. Haja paciência para agüentar tanto “ti-ti-ti” na televisão, jornais e rádios. Pelo caminho que todo esse disse-me-disse está indo, daqui uns dias vão cogitar o fato de ter sido suicídio infantil. Eu acho graça. Jornalistas enlouquecidos com suas câmeras fotográficas e gravadores na porta do apartamento da família 24h do dia. As fofoqueiras de plantão pasmas com o trágico acontecimento não dão um minuto de sossego para a língua. Ora essa, minhas senhoras, vão limpar a cozinha, cuidar dos filhos das senhoras. O feijão ainda não queimou? De fato, graças à tão famosa liberdade de expressão todos tem direito de acusar. Mas convenhamos senhores, culpados ou não a mídia acabou com a vida da família. A coitada da menina não pode nem descansar em paz e o pior, isso tudo ainda vai longe. Não demora muito para o caso Isabella chegar ao programa da Xuxa. “Hoje no Xuxa só para baixinhos vamos fazer uma gincana só com as brincadeiras que Isabella gostava de brincar”. Do jeito que a coisa anda, até Ana Maria Braga vai fazer um programa só com os quitutes favoritos da menininha. Ah, essa mídia é realmente importuna. O caso foi sem dúvida, alarmante. Mas tenha santa paciência. Já deu o que tinha que dar. Desliguem a TV senhores. Leiam um livro, ouçam uma boa música, vão cuidar de seus afazeres. Deixem que as autoridades cuidem do caso e deixem a família em paz. Eles já não devem estar mais agüentando toda essa movimentação. Para ser sincera, nem eu mesma, agüento. Quero deixar claro, meu respeito à família, a menina Isabella e meu repúdio a mídia recursiva e néscia desse país, principalmente diante desse caso.

O perfume

Ela escolheu o perfume com muita calma. Queria o perfume perfeito. Sentiu o cheiro de vários na loja, mas só um fez com que ela sentisse o corpo amolecer. Ao inspirar aquele aroma doce, os olhos fecharam e o sorriso foi inevitável. Era aquele o perfume perfeito. Na volta para casa, imaginou como tudo seria. Ele ligaria no fim da tarde e marcariam de se encontrar a noite. Ela colocaria seu vestido vermelho de seda com sua meia fina preta, fio 40 e seu scarpin. Mas o principal, seria o perfume. Ela espirraria o perfume suavemente nos punhos, esfregaria um no outro para retirar o excesso e depois duas borrifadas no pescoço. Ele na certa notaria o perfume novo, fecharia os olhos e abriria um sorriso. Era impossível resistir ao aroma do novo perfume dela. As horas foram passando e o telefone não tocava. Ela já estava quase pronta. Vestiu a roupa rapidamente, a meia e o sapato. Colocou brincos dourados e amarrou os cabelos. Parou em frente ao espelho e pegou o perfume. Espirrou nos punhos e depois no pescoço. Mais uma vez fechou os olhos e sorriu. Uma sensação gostosa tomou conta do seu corpo. Ele sem duvida alguma adoraria o perfume. Sentou-se em frente ao telefone e esperou. Esperou... Tirou os brincos e soltou o cabelo. Esperou... Tirou os sapatos, a meia e o vestido. Esperou... Vestiu o pijama e dormiu. Ela não queria beijos e carinhos naquela noite, ela apenas queria que ele sentisse o perfume que ela havia comprado. Que ela havia comprado pensando nele.

O contrato social de Lula

Descobri hoje o que aconteceu com o Brasil. Desvendei a grande charada da bagunça brasileira. Estive pensando muito sobre a situação atual do nosso país e cheguei a uma simples conclusão: O nosso grande companheiro muito antes da eleição deve ter se fechado em sua casa e por incrível que pareça, deve ter devorado determinados livros de três autores. Hobbes, Locke e Rousseau. ( Sei que é impossível, mas tentem entrar no clima da historinha ) Pois bem, o grande companheiro descobriu que antes da existência do Estado todas as pessoas viviam em seu estado de natureza e que o estado surge através de um contrato social. Empolgou-se com a idéia. Era isso que estava faltando. Ele leria os livros, entenderia tudo sobre esse tal contrato e faria um novo. Da sua maneira. Pois bem, começou com Hobbes. Enquanto lia foi entendendo que na visão do filósofo esse estado natural era péssimo para os seres humanos, pois eles precisavam de uma autoridade, um soberano que mantivesse a ordem e garantisse paz e segurança à comunidade. Parou. Tomou uma dose de cachaça e se imaginou sendo coroado e temido por todos. Imaginou todas as pessoas do Brasil cedendo a ele todos os seus direitos em troca apenas da garantia da paz. Ao tomar a segunda dose lembrou-se de São Paulo e percebeu que garantir a paz não seria tão fácil assim. Fechou o livro. Passou a ler Locke que ao contrario do autor anterior partia da idéia que esse estado de natureza era bom, as pessoas viviam felizes com seus direitos naturais, mas havia conflitos porque como não existia estado, nem autoridade alguma para resolvê-los e as pessoas tinham direito de autotutela. Parou novamente. Gritou para sua esposa Marisa e pediu que ela trouxesse um dicionário até seu aposento. A mulher entra no quarto, cheia de cremes na face e bobs nos cabelos. Com aquela saia de sempre e o terninho da mesma cor. Tudo tom sobre tom. Deixa o dicionário sobre a mesa do companheiro e volta a seus cremes. Ele abre o dicionário e procura... Procura... Fecha o Aurélio. Fecha Locke também. De nada adiantaria ler o restante do livro sem saber que diabo significava “autotutela”. Sua última chance estava em Rousseau. Já meio desanimado com toda aquela filosofia complicada e palavras estranhas pegou o livro e começou a leitura. Nosso companheiro não gostou nada das idéias desse filosofo. Rousseau queria o bem comum e o companheiro... Bem, ele não estava muito preocupado com isso. Estava prestes a fechar o livro quando lê sobre um primeiro contrato social feito entre as pessoas. Segundo Rousseau, um contrato injusto e opressor. Onde quem não tinha nada, teria que se submeter aos que detinham propriedade e poder. Ele achou engraçado, o fato de esse contrato ter sido feito com tanta facilidade. Gostou da idéia. Seria ótimo se ele conseguisse enganar o povo todo e fazê-los contentar-se com pouco. Naquela noite preparou seu discurso. Escreveu com letras grandes e tortas a seguinte arenga: Companheiros e companheiras, tenho estudado muito para mudar a situação do nosso país e vejo que nossa única saída é o estabelecimento de um contrato. Vamos assinar um contrato meus companheiros, onde os pobres terão seus empregos garantidos! Nós, detentores de poder e propriedade daremos a vocês a chance de trabalhar! Vocês serão privilegiados...
Começou a lembrar de alguns trechos do livro que acabara de ler e o discurso virou uma bagunça total:
...Que natureza que nada meus companheiros, eu posso oferecer muito mais. Eu posso oferecer bolsa-escola, bolsa-família, bolsa-gas, bolsa-merenda, bolsa-balada, bolsa-combustível, posso oferecer bolsas do que vocês quiserem companheiros. E para que isso tudo aconteça você só precisam abrir mão de algumas coisas como a saúde, a educação, a segurança...
Como de costume terminou o seu discurso com uma frase ES-PE-TÁ-CU-LAR - “O Estado nada mais é que uma mãe, e a mãe sempre vai dar mais atenção ao filho mais fraquinho”. (Lula)
É caros leitores, basta analisar um pouquinho do Brasil para chegar a conclusão de que Nietzsche estava certo ao dizer que Deus fez muito bem ao impor limites à sabedoria humana, mas errou ao não limitar a estupidez da mesma.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

E o troféu joinha vai para...

Vou direto ao assunto. Fiz tudo como a Dona Clara, a papa-hóstias lá da Igreja mandou. Acendi a vela vermelha que era pra marcar bem a urgência e deixei a carta sob os seus pés. Fiz também meu nobre santo, todas as orações que a rata da sacristia – Dona Clara - mandou. Não deixei faltar nenhuma. Ave Maria, Pai nosso, Creio em Deus e a famosa trezena. Mas não aconteceu nada. NA-DA! Ah, estava pensando, será que se eu tivesse emendado uma trezena na outra, umas treze vezes, teria potencializado o efeito? Sabe como é não sou exímia nesses assuntos de pedidos e orações. Se bem que pelo menos o pagamento da promessa foi gordo. Vai dizer que não foi tentador senhor santo? Mil folhetinhos com sua foto, no seu melhor perfil, espalhados por aí? Ora essa, com um pagamento desses até eu faria milagre. Custava o senhor ter feito uma forcinha? Outra coisa senhor santo casamenteiro, eu não me atrevi a deixá-lo virado para parede, muito menos o afoguei dentro de um copo de água. Com todo respeito... Mas... O senhor por acaso é masoquista? Vai saber né Senhor Casamenteiro, às vezes o senhor gosta... Mas eu pensei bem enquanto fazia o pedido e cheguei à conclusão de que se eu tivesse virado o senhor de ponta cabeça, dentro de um copo com água, ou se tivesse apenas lhe virado para parede, como é que o senhor iria achar o dito cujo? Bem, se foi isso que faltou, não vamos perder tempo, é já que resolvo esse problema. Minha tia disse para tirar o bebê que você carrega no colo, segundo ela é tiro e queda. Confesso que senti pena da criança e não fiz essa maldade também. E agora eu fico pensando, quem sabe o senhor também não agüenta mais segurar o menino no colo e quer se livrar dele por alguns dias? Só pode ser isso. Ou quem sabe, o senhor ignorou meu pedido pelo fato de que não pedi um casamento. É só casamento que vale? Ora essa, santinho... As coisas hoje em dia não são bem assim. Antes de casar tem aquela coisa de ficar, curtir uma balada, sair tomar umas cervejas. Depois começa o tal do namoro e aquela melação toda de “amorzinho” pra cá e “benzinho” pra lá. Ninguém casa de uma hora pra outra meu querido santo. Tem que ter paciência, as coisas hoje andam meio complicadas. Na verdade, estou chegando à conclusão de que o problema aqui é o senhor, que anda meio desinformado. Mas sem rodeios, escrevi essa crônica para oferecer-lhe um presente, já que você não deu a mínima para os folhetinhos com sua foto...
Deixo aqui o troféu joinha para o senhor.
Valeu aí Santo Antonio! Na próxima vez quem sabe eu afogue o senhor!

A Mosca.

Algo muito adventício aconteceu há alguns dias atrás. Caros leitores pensei muito se contaria esse caso a vocês. Pelo simples fato de que talvez alguns de vocês se assustem com essa historia. Mas como gosto de falar. Não me agüentei. Foi em uma tarde nublada. As janelas estavam abertas e enquanto eu bebia meu café, podia sentir a brisa gelada que entrava balançando as cortinas. Eu estava ouvindo Dirty Mac, yer blues e lendo algumas crônicas de Rubem Braga. Decidi fechar as janelas. Estava ficando frio. E aquela brisa gelada teimava em entrar no quarto. Levantei-me. Fechei-as. Sentei para tomar mais um gole de café. Mas quando levei a mão para pegar a xícara. Deparei-me com uma mosca. Sentada na minha xícara. Sim, na minha xícara de café. Que ousadia, pensei. Qual é a dessa mosca? Sentar na minha xícara de café. Mas o pior, caros leitores, não foi apenas o sentar da mosca em minha xícara. Ela sentou. E me olhou. Como quem diz: “Aí otária! Sentei na tua xícara.” Aquilo realmente me revoltou. Não costumo agredir animais, insetos ou qualquer tipo de ser vivo. Mas aquela mosca estava abusando da minha paciência. Resolvi acabar com aquela pouca vergonha. Peguei o mata-moscas e quando parti para o ataque, ela simplesmente voou para cima do computador e disse, sim leitores, ela DISSE: “Eu não faria isso se fosse você”. Parei. Confesso que não consegui mais matar a maldita mosca. Talvez eu tivesse exagerado um pouco na dose de café. Não sei. Acontece que resolvi responder aquela mosca preta sem vergonha. Parece loucura. Mas eu precisava ter certeza de que ela realmente tinha falado comigo. Feitas as apresentações, a danada soltou o verbo. Contou-me da vida de todos os vizinhos e mais um pouco. Imaginem só, uma mosca fofoqueira. Era só o que me faltava. “Fofoqueira é quem ouve não quem fala”. Além de fofoqueira era linguaruda. Mas resolvi dar trela para a mosca. Afinal de contas, quem é que não gosta de uma fofoquinha às vezes? A fofoca é algo contagiante. Mas enfim, voltemos à mosca e suas balelas. Ela contava-me que acabará de sair do apartamento do vizinho do andar de cima. O coitado é louco. Já havia presenciado algumas de suas loucuras, mas nada parecido com ao que a mexeriqueira me contou. Disse-me que ao passar pelo seu apartamento, viu-o de frente ao quadro de Michelangelo. Davi. Segundo a mexeriqueira, ele estava em pé, com pinceis e tintas guaches. Falava sozinho, indignado com o tamanho do... Bem, ele achava vergonhoso para o bonito moço do quadro, estar exposto daquela maneira, ainda mais, porque o seu órgão sexual era um tanto quanto insignificante. A mosca disse-me que pensou em explicar a ele, que se o pintor o tivesse feito com um baita órgão, o quadro perderia sua beleza, pois a única coisa que chamaria atenção seria o dito cujo. Mas ela resolveu ficar ali. Imóvel. Só assistindo a cena. O vizinho estranho pegou o pincel molhou na tinta e colocou a mão na massa. Tratou de aumentar o desenho do pequeno órgão do moço do quadro. Ela estava eufórica. A cada detalhe que contava soltava uma bela de uma gargalhada. Que mosquinha lazarenta! Não tive nem tempo de comentar sobre a fofoca. A danada da mosca já tratou de falar da vida da gorda do apartamento ao lado. “Que bunda imensa”. Dizia a mosca. A jovem gorda baixinha era tão feia, mas tão feia, que deveria fazer uns trinta anos que ela não fazia amor. Passava o dia comendo e chorando as magoas. Roia as unhas compulsivamente e lia livros de auto-ajuda. Sempre sentada no sofá, com algum pacote de fritas e um refrigerante light. Gordo adora tomar coisas light e comer fritas. Falava-me a mosca rindo. A Mosca parou de falar. Estranhei. Perguntei a ela, qual era o motivo do silêncio. Ela deu uma respirada bem funda e continuou. Disse-me que a gordinha levantou do sofá e dirigiu-se ao banheiro. “Foi um Deus-nos-acuda”, dizia a mosca com uma expressão de horror. A pobre gordinha tinha problemas em defecar. Às vezes, até conseguia fazer sair algumas bolinhas, depois de muito gemido e sofrimento. Diz a Mosca que o signo da gordinha no horóscopo chinês era Cabra. Talvez isso tivesse alguma ligação com o horror que a rechonchuda vizinha sentia ao receber o “chamado da natureza”. Que absurdo. Pensei. Essa Mosca é louca. Mais louca que o vizinho do andar de cima. Quem é que gosta de assistir alguém... Com o perdão do palavrão, cagando! Que asco. Pedi a ela, que parasse com aquela historia. Queria poder terminar de comer minhas bolachas de chocolate em paz. Ela atendeu meu pedido. Mas partiu para outra. Lá no último andar, contava a fofoqueira, mora o Sr. Arnaldo. Sempre de terno, camisa, gravata e sapatos pretos. Diz a Mosca que passou a observá-lo com mais freqüência, pois desconfiou que fosse ele o cara que fazia cerimônias de enterros. Mas não era nada disso. O cara tinha tique nervoso. Piscava os olhos constantemente e dava umas erguidinhas no lábio superior. Segundo a Mosca, corno na certa. E manso ainda por cima. Sei lá de onde foi que aquela maluca tirou isso. Mas ouvi em silêncio. Ela continuava expondo toda a vidinha medíocre do meu vizinho. Foi abandonado pela esposa. “Também pudera, quem agüentaria muito tempo com alguém que vive com o mesmo traje e mesmo sendo jovem tinge os cabelos? Sem falar no bigode, também tingido”. A Mosca não era fraca. Não perdia uma piadinha. Lazarenta. Senti vontade de voltar a minha leitura, mas confesso que estava me divertindo com aquele inseto preto. Deu uma passeada pela minha casa. Sentou novamente em minha xícara de café já frio. É claro. Não tomei mais nenhum gole depois daquela bela sentada que a maldita Mosca deu. Continuou com toda a ladainha. Disse-me que passou pela padaria do Sr. Chicão ontem. Enquanto esfregava uma perna na outra me contava que sentia pena dos clientes do Sr. Chicão. Os doces eram maravilhosos sim. Ela mesma já tinha provado todos do cardápio. O Chicão da padaria era cheio de manias. “Coçava a bunda e limpava o nariz o dia inteiro”. Coitados. Dizia a mosca. Segundo ela, os clientes reclamam quando ela resolve dar uma passada por lá. “Ah, se eles soubessem o que o padeiro faz lá dentro da cozinha...”. Bem, uma coisa é certa. Essa história serviu para que eu não entrasse mais na padaria. Em pensar que comia carolinas toda semana lá. Credo. Pedi para que ela parasse com aquele assunto. Já estava passando mal, só em lembrar tudo que eu já tinha comido. E tudo feito pelo Sr. Chicão. Porco. Fez-se um breve silêncio. Breve mesmo. A tagarela lembrou-se da Dona Ana. Uma velha beata do apartamento sete. Faz parte da Irmandade do Santíssimo Sacramento, é catequista. Guarda "domingos e festas", "reza" o tempo todo que tem livre... É a tal da "papa-hóstia" convicta. Uma legítima "rata de sacristia". Anda pra lá e pra cá com a Bíblia em baixo dos braços. “Uma verdadeira alcoólatra de água benta”. Proferia a mosca em meio a gargalhadas. Bem, eu já estava me cansando de ouvir tanta arenga. Aquela cantilena estava realmente me irritando. Estava na hora daquela mosca ir mexericar em outro apartamento. Foi quando ela me olhou com uma cara desconfiada e contou-me que estava aqui em casa no sábado passado... ”Lá pelas dez horas para ser mais exata” Concluiu a desgraçada com um tom de voz muito irônico. Não pensei duas vezes. Matei a mosca. Ela sabia demais e sem dúvida nenhuma, falava demais.

domingo, 7 de setembro de 2008

O vestido verde.

A moça estava parada diante da vitrine. Era feia. O cabelo era quase um catálogo de tintas e as espinhas tomavam conta das bochechas, queixo e testa. As orelhas eram enormes, mas ficavam pequenas perto do nariz. A moça era magra, ou melhor, era muito magra. Vestia um calção jeans largo, uma blusinha preta e meias coloridas. Olhava a vitrine com brilho nos olhos. A manequim vestia um belíssimo vestido verde de seda, com fitas presas a cintura e um decote sensacional. Era um vestido longo repleto de garbo e elegância. No colo da manequim, um colar com pedras brilhantes, magnífico. Havia na vitrine também um sapato prateado, trançado nas pernas com um pequeno detalhe em strass. Discreto, porém gracioso. A moça feia seguiu seu caminho, sem deixar de pensar no vestido, na sandália e no colar de pedras brilhantes. Chegou a sua casa e parou em frente ao espelho de seu quarto. Fazia poses, imaginando-se dentro daquele vestido. Sentia-se como uma princesa em um baile de gala. Parou por um instante, e contemplou a própria feiúra. Decidiu comprar o vestido, queria sentir-se uma princesa. Feia, mas princesa. Foi até a loja, entretanto, o vestido já não estava mais lá. Voltou para casa chorando, inconformada. E enquanto isso, no outro lado da cidade, uma jovem gorda tentava aos prantos entrar no vestido verde que acabara de comprar. Tinha um rosto belo, lábios desenhados, pele macia, cabelos longos e bem cuidados, mas era gorda.

Da morte da Língua Portuguesa

Morreu hoje a nossa admirável língua portuguesa. Segundo a entrevista dada pelo Dr. Aurélio e sua enfermeira Minigramática, a incomparável língua portuguesa estava passando por um período difícil. Após muitos anos internada em estado crônico, não conseguiu resistir ao último golpe. Contam os médicos que a língua passou por varias cirurgias onde toda a equipe médica formada por professores de gramática tentaram recuperar o uso de “ch” e “s” que teria sido trocado pelo “x”. Além das tentativas de resgate dos acentos agudos e circunflexos. A luta pela separação do “oque” foi complicada, a junta médica pensou em amputar o “o”, mas de nada adiantaria. Amigos contam que a língua portuguesa não resistiu à falta de leitura que fez com que os seres pensantes errassem na regência e na concordância das frases e palavras. Proferiram ainda que a dificuldade desses mesmos seres em conectar idéias e interpretar textos foi o suficiente para a nossa língua portuguesa não resistir. Mas o problema não acabou por aí, após essas tentativas de salvar a língua (todas fracassadas), os médicos descobriram que havia ainda outro motivo para o aumento da gravidade da doença da língua. Segundo eles, não estava mais sendo usado acento agudo nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, assim como, nas palavras paroxítonas com “i” e “u” tônicos, quando procedidos de ditongo. O acento circunflexo não era mais empregado nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo. O “h” teria sido eliminado de diversas palavras e a trema simplesmente deixou de existir. Segundo especialistas a situação da língua tornou-se inalterável. Foram encontrados no “organismo” da língua alguns vírus jamais vistos por eles, como o “amigox” (causador da extinção do “s”) e “porke”. Outros parasitas como o internetês, miguxês e o tiopês também colocaram em risco a saúde da língua. Dr. Aurélio levantou a hipótese de problema psicológico, causado por algum trauma na infância da língua, todavia, a enfermeira Minigramática constatou que o distúrbio mental da língua teria sido causado por trechos de conversas e alguns textos que permaneceram armazenados no sistema de memória da paciente. O laudo médico apresentado a mídia hoje pela manhã, deixa claro a causa da morte. Segundo o mesmo, a língua portuguesa teria sido assassinada dentro do hospital. Segundo a polícia os assassinos utilizaram pedaços de papeis e enviaram textos para a doente. A polícia disponibilizou para a mídia fragmentos presente nesses simples papeis que levaram a língua portuguesa à morte.
“Oix kerida língua!
Kero DiSer p Vc ki nox estamus muitos tixtis com a sua doensa. Tamo eXcrevendu a carTa p ver si vc meliora logu.”
“Vamos estar aguardando a sua melhora”
“Oi Língua, vou estar enviando junto dessa carta, um livro sobre a origem da língua portuguesa DE que você vai gostar.”
“Fazem duas semanas que tento mandar essa carta para você”
“Num sei si vc sabi, mais desdi k vc ficou doente houveram muitos acidentes fora do hospital”

A ultima frase lida pela língua foi a seguinte:

Existe muitas esperanças de vc si recuperar. Vamos estar torxendo p issu. Bjxxx”.

Sentimos muito pela perda da surpreendente língua portuguesa e esperamos que os especialistas encontrem o quanto antes a cura para esses parasitas ainda desconhecidos pela medicina gramatical a fim de que outras possíveis mortes sejam evitadas.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Saboreando literatura

Essa crônica nada mais é que um apelo. Um grito pela literatura. Um grito por romances e aventuras. Não entendo essa gente. Essa gente que se diz sábia, que se diz intelectual ou sei lá o que. Essa gente que anda por aí com seus diplomas estampados na testa achando que isso basta. Mas quero falar sobre meus colegas de faculdade. Eu não entendo mesmo essa gente. Antes que torçam o nariz e me repreendam, não estou generalizando. Mas é que essa gente anda muito despojada. A faculdade não limita você a ler apenas os textos oferecidos pelos professores do curso. Cultura não é só ler aquele trechinho de Hobbes e aquele outro de Kant. Seria, se você lesse para a vida e não para responder algumas questões na data da prova e amanhã nem sequer lembrar-se da existência deles. Fico chateada quando falo em Machado de Assis e ninguém me da atenção. Fico mais chateada ainda quando falo com emoção sobre os livros de Érico Veríssimo: Buenas e me espalho, nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho. Sem contar os poemas do saudoso Castro Alves sem que ninguém me dê ouvidos. Certo dia cheguei à faculdade, e ao invés de dizer o “Bom dia” de sempre, entrei na sala como entrava meu professor de literatura. O inesquecível Valdir. Passei pela porta, ergui os braços e olhei para meus colegas de turma dizendo: “Cheguei, chegastes. Vinhas fatigada e triste, e triste e fatigado eu vinha. Tinhas a alma de sonhos povoada e a alma de sonhos povoada eu tinha... Parei. Meus colegas permaneciam imóveis. Alguns acharam simplesmente engraçado, outros estavam com aquela expressão de que nunca tinha ouvido ou visto algo parecido. Enfim, BOM DIA. Sentei-me e saboreei minha indignação sozinha. Queria ter pelo menos terminado o poema de Olavo Bilac. Mas é isso. Estou cansada de aproveitar a literatura sozinha. Queria poder discorrer sobre tudo isso com alguém, mas confesso que não está fácil encontrar esse alguém. Acredito que aquele que se forma apenas lendo os textos disponibilizados por seus professores acaba fechado de mais. Conteúdo não é apenas aquilo dado em sala de aula. Conteúdo é leitura. E não qualquer leitura. Triste daquele que não conhece a literatura brasileira. Que nunca se quer tocou em um livro de Aluízio Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo, Simões Lopes Neto, José de Alencar. Ah, José de Alencar. Iracema, virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que o talhe da palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Ah, Iracema, quanta saudade. Ta aí colegas, Jose de Alencar foi formado em direito. Sabiam? Lima Barreto e o Triste fim de Policarpo Quaresma, Os sertões de Euclides da Cunha. Ah, sinto falta desses livros, desses romances, aventuras. Vocês, caros “sábios” já leram algum dia Manuel Bandeira? Não sei vocês, mas eu sinto uma alegria imensa ao ler: “Irene preta, Irene boa. Irene sempre de bom humor...”. Tem algo mais mágico que poesia? Tem algo mais arrebatador que um bom romance? Literatura meus caros, literatura. Balzac e a Prima Bette, Franz Kafka e o processo, Miguel de Cervantes e Dom Quixote. Ah, as filhas do falecido coronel de Katherine Mansfield... Diga lá caro leitor, isso não te fascina? Eu realmente não entendo essa gente que não sente prazer ao ler. Que não vive cada pagina de um livro. A vida não se resume naquilo que a faculdade ensina. A vida é literatura. E vocês colegas, que tanto acham “chistoso” esse meu jeito literário de levar a vida, um dia, vão sentir falta dessa magia. Falo de Liev Tolstoi, Sófocles, Stendhal. Falo de Brás, Bexiga e Barra funda, Clara dos Anjos, Espumas Flutuantes, Macunaíma. A Lira dos vinte anos “Mas essa dor da vida que devora, a ânsia de glória, o dolorido afã...”. Ora essa caros leitores, impossível não se sentir deslumbrado com tanta riqueza e tanto conhecimento que os livros nos oferecem. Ah, quase esqueci de um dos meus preferidos. Gonçalves Dias. Já leram ou ouviram alguém recitar a canção do exílio? Se a resposta for negativa, podem me chamar. Recitarei com alacridade: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá...”.
Como disse, essa crônica é um apelo. Um apelo ao não esquecimento da beleza e do enorme conhecimento que existe na literatura. Espero de coração caros leitores, que pelo menos um de vocês tenha terminado de ler essa crônica e sentido saudades das aulas de literatura e mais, que ao terminar tenha sentido vontade de ler ou reler alguma dessas obras primas.

Mas... Por quê?

Crescemos mergulhados em um mar de porquês. Quando crianças, não entendemos porque devemos escovar os dentes depois das refeições. Não entendemos porque temos que ir à escola sendo que queríamos na verdade ficar brincando em casa. Questionávamos-nos sobre porque o sorvete é gelado ou porque há dias em que chove e dias que faz sol. Lembro-me de um pequeno vizinho. O rapazinho tinha quatro anos e era um doce de criança.
- O que é isso?
- É chá.
- Porque está tomando?
- Estou gripada.
- Por quê?
- Porque saí no frio, e fiquei gripada.
- Por quê?
- Porque não faz bem pro nosso organismo sair no frio com o corpo quente.
- Por quê?
- Porque sim Otávio...
-... Mas por quê?
A conversa foi realmente longa. Crianças questionam tudo, entretanto, inocentemente. Por pura curiosidade. Aí finalmente crescemos. Esquecemo-nos dos inocentes porquês. Simplesmente levamos a vida da forma que nos entregam. Todavia, sinto-me obrigada a deixar aqui alguns porquês, não tão inocentes e puros como a do meu pequeno vizinho Otávio. Talvez sejam porquês necessários, ou talvez, sejam apenas porquês.
Andei lendo sobre a crise que assusta todo o país e o mundo da escassez de alimentos de todos os setores. De fato, é preocupante. Acredito que o ser humano não poderá viver sem suprir suas necessidades básicas de alimentação. As organizações governamentais e não-governamentais estão realmente inquietas e tentando encontrar soluções...
Ainda bem, que esse problema surgiu só agora. Há-há. Eu acho graça. Inúmeras pessoas morrem de fome em todo o mundo. Muitas delas morrem sem identidade. É um mar de gente invisível. Passamos por diversas delas quase todos os dias e o máximo que passa por nossa mente é um “mísero”. Às vezes nem passa. Isso já virou rotina. Faça o seguinte caro leitor, saia de casa e vá para o centro da cidade. Lá, você encontrará muita gente invisível. Suba o morro, ou simplesmente atravesse a rua. Mas... Por quê?
Mas tenho que confessar que fiquei admirada ao ver a imensidão de “frutas” que surgiram ao pé dessa crise de alimentos. É melancia, jaca, moranguinho... É muita fruta. E é impossível não ser atraído pela “belíssima fruta”, apesar de que hoje não precisa ser bela, basta ser gostosa. Não é? Essas frutas que saíram da bancada dos supermercados hoje dominam os programas de TV, revistas, jornais. MA-RA-VI-LHA. Vamos viver dessas frutas já que os demais alimentos estão se tornando escassos. Você deve estar torcendo o nariz e exclamando “Ora essa, mas não é só isso que a televisão mostra.” De fato não é só isso. E posso comprovar. Liguei a TV alguns dias atrás, e recebo a brilhante notícia de que o Ex-BBB, Marcelo passeou em uma tarde de muito sol e calor por copacabana. O mais incrível é que segundo a repórter ele bebeu muita água e não largou sequer um segundo de sua garrafa. (?)
Pressinto que você esteja mais uma vez a torcer o nariz e ainda contestando minha opinião. “Mas e o Fantástico, o Jornal Nacional?” Ora essa caro leitor, o noticiário hoje acompanha as datas festivas. (Já escrevi sobre isso na crônica “Tenha santa paciência”, mas dar-me-ei ao luxo de fazer breves ponderações). Fevereiro é muito carnaval, fantasia, pernas, coxas, peitos e claro, muita bunda. Fevereiro é pouca corrupção, pouco assalto e pouca desnutrição. Março é páscoa. É chocolate pra cá e pra lá. O Fantástico visita diversas cidades com feiras de chocolates, mostra como aproveitar o doce sem exagero, e ainda como comprar sem gastar muito. Pouco se fala sobre o mundo, a economia. Chegamos ao mês de Abril, gordos e felizes. Volta o mensalão e o dinheiro nos fundilhos. Mas logo vem Maio. E aí, é o maravilhoso dia das mães. Mais uma vez aprendemos com a TV a comprar presentes bons sem gastar muito. Fulana reencontra a mãe depois de dez anos afastadas... Junho é São João. Julho é férias. Agosto, Setembro. Opa, agora é sete de setembro. Marcha soldado! Outubro é dia das crianças. Lá vem a mesma história da páscoa, entretanto trocam-se os deliciosos chocolates por atraentes brinquedos. Novembro, Dezembro. É natal... Mas aí chega janeiro. Ano novo minha gente. Festas, fogos. E então voltamos ao carnaval... Um belo dia, um padre que não tinha missa alguma para rezar, resolveu voar. Outro dia, jogaram uma criança pela janela e no outro espancaram outra... Os EUA aprovaram novos fundos para guerra no Iraque... A Coréia do Norte fez declarações sobre seu programa nuclear... Mas por quê?

A crise e a cura

A tal da crise existencial é formidável. Passamos toda a nossa vida escolhendo decisões e caminhos a serem tomados. Esses escolhidos, são no primeiro momento talvez a coisa mais certa a se fazer. Mas aí começamos a enfrentar um mar de percalços. Passamos a pagar pelo preço da nossa crise existencial, o preço por ter que escolher também os efeitos da decisão tomada. E assim vamos levando a vida. Escolhendo e pagando o custo de cada alternativa. É impossível permanecer imparcial. Temos que escolher entre sermos uma essência oculta em nós ou nos adaptarmos à vontade alheia. Escolhemos entre o “eu quero” da nossa alma e o “você deve” imposto pela sociedade contemporânea. Cabeça ou coração? Esse nosso desespero, pelo ser ou pelo estar, pode levar-nos a vitória ou a derrota e talvez a cura para todo esse desespero apareça quando você, ser humano, reconhecer a sua própria crise. Kierkegaard, um filosofo norueguês explicou toda essa confusão entre o ser, o estar, o dever ser e o querer ser, dizendo o seguinte: "Todo desespero é fundamentalmente um desespero de sermos nós mesmos”. Segundo o filosofo, o primeiro passo para vencer o desespero, é tomar consciência do mesmo, dar-se conta de que o individuo está sendo aquilo que na verdade ele não quer ser. Está vivendo como um ser obediente, escravo. Nietzsche escreveu: "Manda-se naquele que não pode obedecer a si próprio”. É fato, um eu em desespero age da maneira que esperam que ele aja e não da maneira que ele espera realmente agir. O ser humano possui capacidade de ousar de si próprio, de mudar eventos de sua vida. E não sou apenas eu que digo isso, muito antes de eu pensar sobre toda essa confusão, sobre toda a busca pela cura do desespero, Heidegger proferiu: "O homem é um ser que está para além da sua própria situação". Alguém discorda? Bem, se isso ainda não foi suficiente para provar essa teoria da cura do desespero, citarei aqui o pensamento de Sartre que para mim, encaixa-se nessa discussão: "Não importa o que fizeram de mim, importa o que eu faço daquilo que fizeram de mim". Nós, seres humanos, somos aquilo que desejamos ser, o grande problema é que nos tornamos escravos da rotina, presos ao “você deve”. Esquecemos que somos a pessoa que nós escolhemos ser. Os primeiros filósofos, desde a Grécia Antiga, já buscavam respostas para a razão do ser do homem. A questão é que em pleno século XXI, nos deparamos com a mesma dúvida existencialista. Perguntas como: Ser ou não ser? O que ser? Pra que ser? Até quando ser? Somente ser? E ainda, a pergunta que não canso de fazer a mim mesma: O que falta no ser do homem moderno? Vivemos em um mundo caros leitores, tomado de conjunturas mistas de expectativas e o pior, com ausência de perspectiva no futuro. Escolher, nada mais é que abraçar uma escolha e desapegar-se de outra. Fica aqui a escolha, entre ser um ser conformado ou um ser autentico. Pagar-se-á o preço para qualquer uma das opções. E aquele que ainda acredita que a existência nada mais é que buscar o prazer e evitar a dor descobrirá em algum momento de sua existência que a vida não é só isso. Eduque-se e busque ser aquilo que você pode ser e quer ser. Esqueçam o que articulam sobre o “tu deves”. Seja você. Perdoem-me essa filosofia toda, mas estou procurando a cura para o meu desespero.